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«Bumblebee» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Entramos aqui de porta escancarada num pleno paradoxo. Se por um lado, este Bumblebee será para muitos dos adeptos da saga (e não adeptos) o “mais filme” dos sete (saliento com isto a comodidade da narrativa de três arcos e dos reconhecidos elementos que formam, por exemplo, os êxitos crowd pleasure), é também o menos personalizado. É que, para o bem ou para o mal, os tiques visuais e a megalomania de Michael Bay atribuiam a este franchise uma “casa à sua marca autoral”. Mesmo com o sufoco narrativo, perversamente esmagado num sexto filme, havia uma liberdade que se sentia nesta jornada cinematográfica dos famosos produtos da Hasbro.

É certo que de Bay existe uma presença tóxica que por si  só afastou The Last Knight do habitual target de audiências (605 milhões não é nada em comparação com a entrada na casa dos mil milhões de dólares dos capítulos anteriores). Com Bumblebee, focando sobretudo na origem do carocha que sempre se pontuou como um dos favoritos dos fãs, Travis Knight (vindo das animações stop-motion da Laika) prescreve um filme anacrónico da cultura-pop dos anos 80 (moda nostálgicas … check), sob a vencedora pasta de “family-friendly” como os norte-americanos gostam de apelidar. Ou seja, povoando um território mais familiar, mais contido (até mesmo as sequências de ação são mais elegantes e percetíveis), este spin-off/prequela de Transformers é uma formula vencedora no que requer a citar os atributos desejados do público mainstream.

Convém salientar que a sobriedade de Knight no storytelling concentra aqui a sua melhor qualidade/ambição, extraindo da loucura à lá Bay estas personagens e inseminá-las em fertilidades "spielbergueanas" (Steven Spielberg mantêm o seu cargo como produtor). Porém, como entretenimento, Bumblebee abdica da espetacularidade em nome da arte de contar uma história para massas. Infelizmente, é com isso que se converte em “mais um filme”.

Profundamente despersonalizado e anónimo, Travis Knight (mesmo tendo entregando a preciosidade de Kubo and the Two Strings) é um jogador fiel às suas regras e Michael Bay um desalmado que mina os seus filmes de devaneios catastroficamente artísticos (goste-se ou não, há que reconhecer que Bay é um autor destes novos tempos) que pouco quer saber desses mesmos regulamentos da industria. No final, só um ficará para a posteridade. As nossas apostas estão nos “trambolhos” narrativos de Michael Bay. 

Hugo Gomes

«Aquaman» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Longe dos fundamentalismos (ou “fanatismos”) por trás dos universos partilhados MCU (Marvel/Disney) e DCEU (DC Extended Universe), venho defender uma “impopular” perspetiva. A nível formal as apostas da Warner Bros. ostentam uma certa personalidade individual que entram em conformidade com o respetivo “maestro” do projeto, enquanto que a Marvel / Disney (com exceção das incursões de James Gunn e Taika Waititi), preservam uma coerência visual e narrativa em nome do seu franchise, quase requisitando uma linguagem no contexto do seriado. A junção DC / Warner opera através de filmes desengonçados (a imperfeição pode funcionar a favor, como diz o meu colega André Gonçalves) na sua natureza de partilha de um ecossistema, respeitando sobretudo o estilo ou os elementos característicos do seu realizador.

Evidentemente, e usando como exemplo os tiques estéticos que traçavam uma narrativa sobretudo visual de Zack Snyder em Batman V Superman: Dawn of Justice, as tentativas de um neo-noir pós-Training Day de David Ayer em Suicide Squad e a sensibilidade da construção de personagens femininas em Wonder Woman (é importante sublinhar o “tenta-se”), nenhum destes capítulos se interligam da maneira mais orgânica. Portanto, não cedendo em miopias de quem faz melhor ou pior, é certo que neste Aquaman assistimos novamente a essa corrente da “tentativa” autoral, desta feita com James Wan a ganhar o gosto pela grande produção, a trabalhar sobretudo os espaços como tem feito com algum sucesso em recentes e inauguradas sagas como The Conjuring e Insidious. Essa relação é sobretudo adaptada para com a natureza deste filme que segue o ressurgimento de Arthur Curry como Aquaman, herói da DC que tem sido anos a fio envolvido num certo tom anedótico.

James Wan não tem a visão milimétrica com que engenha os jump scares do seus habituais “palcos dos horrores”. Pegando como exemplo a primeira sequência de ação, onde Nicole Kidman luta contra um punhado de guardas atlantes dentro de um farol (importante referir o reduzido espaço cénico), a câmara em ponto semi-zenit mapeia todo o campo, medindo a sua dimensão ao mesmo tempo que incide como um olhar atento à decorrente ação. A partir daqui, surge, ponto a ponto, esse cuidado cénico e a cumplicidade desta para com o movimento das suas personagens (a destacar uma materialização CGI do tão mítico poster de Jaws-Tubarão, auferindo ao espectador uma visão unidimensional da própria ação). Em palavras mais precisas, Aquaman joga com pequenas pitadas de dinamismo técnico-narrativo, as imagens-ação em voga com as imagens-tempo (citando Deleuze), tudo em função de uma invisível arquitetura de arcos narrativos.

Por outro lado, esta nova aventura da DC experimenta, a nível tecnológico, novas realidades e possibilidades na criação de mundos artificiais. Em jeito de Avatar de Cameron (para referir essa perfeição nos mandamentos de George Lucas – as mil e uma possibilidades graças à “autenticidade” do CGI), o filme de James Wan ousa em corporalizar uma Atlântica submersa, como toda uma ação / conflito decorrido debaixo de água (ou até os diálogos envolvidos num certo eco adquirem essa (in)coerência possível).

É verdade que depois desta proposta seguimos um brindar da tecnologia e do visual colorido em modo de um espetáculo circense, mas convém referir que para o bem ou para o mal, Aquaman é um filme antiquado (e não menciono das pequenas essências shakesperianas), exibindo virilidade (o facto de termos Dolph Lundgren por estas águas, aprofunda ainda mais essa sensação) e um espirito aventuroso que o afasta das demais incursões do subgénero. Esta sua atitude leva-o a uma tendência autojocosa e é possível imaginar que se este mesmo filme fosse reproduzido na década de 80 ou 90, seria protagonizado por um Arnold Schwarzenegger ou Sylvester Stallone.

Contudo, sem fazer muito pelo cinema de super-heróis ou ser uma ode do blockbuster americano, Aquaman apura-se como um entretenimento de certo aprumo, aptidão e de constante busca por uma identidade (sabendo nós, que tenta prevalecer e definir o franchise construído por pesados mas poucos passos). Pelo menos existe um espirito mais Star Wars que as últimas variações da saga. 

Hugo Gomes

Manoel de Oliveira "resgatado" da invisibilidade. Uma retrospetiva Cinemateca Portuguesa.

  • Publicado em Artigos

Cristovão Colombo: O Enigma (2007)

A Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema será palco da primeira retrospetiva integral da obra de Manoel de Oliveira, intitulado de O Visível e o Invisível.

O cineasta português será alvo de revisão e imortalização num programa que arranca no dia em que Oliveira celebraria o seu aniversário (seriam 110 anos, para ser exato), que se prolongará até ao inicio do próximo ano. Uma iniciativa que pretende celebrar todo o seu percurso cinematográfico, o qual, tirando as óbvias menções das suas curtas, médias e longas metragens, incluirá os seus filmes encomendados que de certa forma serviram de sustento ao realizador.

Talvez envolvido por um certo estigma, suscitado por volta da década de ’80, numa altura em que se edificava ainda mais a barreira entre o cinema de autor e o comercial em Portugal (a desaprovação do seu Amor de Perdição foi um dos impulsores dessa corrente), Oliveira foi sempre, apesar de tudo, apreciado pelas mentes inteletuais deste mundo fora, ostentando um cinema de artifícios com um certo primitivismo (salienta-se), que embebia sobretudo de muita da criação literal e teatral do nosso património.

“Teatro filmado” como muitos apelidavam (num jeito pejorativo), o cineasta “demoliu” diversas vezes essa barreira ténue que separava as duas plataformas / artes, como é o caso (curiosa coincidência de palavras), Mon Cas (O Meu Caso, 1986), onde a perspetiva e o contexto entram em acordo com um gesto de recriação narrativa, ou a ópera que vai desconstruindo o glamour associado ao serviço de um crítica social a uma aristocracia decadente em Os Canibais (1988).


Mon Cas (O Meu Caso)

Como se poderá evidenciar neste ciclo exaustivo em sua homenagem, Manoel de Oliveira nunca foi um realizador de uma só linguagem cinematográfica, aliás, os períodos fizeram parte do seu percurso como um dos mais notórios artistas, seja qual for a arte. Começando no Cinema como uma paixão jubilante, um prazer em filmar que o levou a concretizar Douro Faina Fluvial (1931) nas suas horas vagas, Oliveira solidificou a sua visão cinemática através da montagem e o poder desta em prol de uma narrativa. Visto como um dos grandes tesouros da nossa cinematográfica, a curta-metragem contraria o rótulo que mais tarde seria atribuído ao cineasta: o detentor de planos longos, “mortos” e sem conflito.

Os seus primeiros anos foram sobretudo devedores ao poder da montagem (mesmo com Aniki Bobó, o seu filme mais popularmente apreciado), até porque Oliveira é um homem do seu tempo, sendo que mais tarde parte para outras aventuras, motivadas por uma acidental descoberta. Através de uma tradicional encenação da Paixão de Cristo pelos habitantes de uma aldeia em Trás-os-Montes durante a rodagem da A Caça (1963), o realizador deparou-se com um retrato etnográfico de um Portugal profundo e à sua maneira místico. A visão despertaria ao mesmo um gosto pela teatralidade, pelo afastamento do real (mesmo que encenado) e uma aproximação da moldável fantasia do crer. Tornou-se na formulação de uma perversa docuficção, e assim nasceu Ato da Primavera (1962), indiscutivelmente uma das suas obras importantes que acabaria por dar-nos um realizador novo até então. Foi um percurso que o guiou à sua próxima fase, que se poderia resumir em “artística”, visto que nesta mesma etapa salientaria a fixação pelo palco e pelas quebras da canónica narrativa digna do chamado storytelling, recorrendo ao teatro e à literatura.


O Ato da Primavera

A partir dos anos 90’, Manoel de Oliveira, pelo positivo ou pelo negativo, torna-se numa tradição do anuário de estreias, produzindo uma obra em cada ano. Fase que se prolongou até ao fim dos seus dias, onde gerou alguns das mais respeitadas pulsações de criatividade e ao mesmo tempo os seus filmes menores, fruto de um cansaço, uma exaustão alicerçada numa vontade de filmar como uma resistência à vida.

Diversas vezes Manoel de Oliveira apoiou-se na História (“Non” ou A Vã Glória de Mandar é um dos mais saudosos hinos ao espirito português) e nos escritos de Augustina Bessa-Luís (a qual suscitou 7 obras, não incluindo com isto os diálogos do muito pessoal Visita ou Memórias e Confissão, gesto biográfico que é resgatado após a sua morte como um póstumo e novo filme), que validaria uma gosto pelos diálogos pomposos, onde a força das palavras proferidas pelo seu grupo de atores (um rol de caras que gradualmente se converteriam em residentes de uma “fundação Oliveira”) salientaria a emotividade do artificialismo.

Os cenários de set, o cinema de estúdio hoje perdido no nosso panorama, a luz que incinde em cada espaço com um fixação magnética (a recordar a sua última longa, O Gebo e a Sombra, onde a fotografia esteve a cargos de Renato Berta), marcas que se imprimiram na pele de Oliveira, convertendo-o em muito mais que um cineasta, mas um ícone, para o bem e para o mal, colocando o Cinema Português no mapa.


O Gebo e a Sombra (2012)

 

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Trailer: «Shaun The Sheep» regressa em mais um filme

Shaun The Sheep, ou em bom português Ovelha Choné, vai protagonizar mais um filme. Depois do êxito de 2015, a criação em stop-motion dos estúdios Aardman (os mesmos de Chicken Run e as aventuras de Wallace & Gromit) vai confrontar-se com uma invasão alienígena. O primeiro trailer já se encontra disponível.

Shaun the Sheep Movie: Farmageddon, dirigido por Richard Phelan e Will Becher, contará com estreia nos inícios de 2019 (em Portugal aposta-se com antestreia no Festival Monstra).

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