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Roy Andersson apresenta fragmentos do novo filme em Sevilha

Roy Andersson é um dos grandes realizadores de culto da atualidade; com 75 anos, o cineasta deslocou-se ao Festival de Sevilha para uma homenagem e uma retrospetiva completa da sua obra. E trouxe uma prenda à audiência que encheu uma das salas do complexo de cinemas Nervion, onde se exibe a maior parte da programação do festival: imagens que misturam um pouco de “making off” com cenas já prontas de About Endlessness, obra com lançamento prevista para 2019.

Em conversa com o público, Andersson falou sobre as suas motivações, as suas opções estéticas e sobre a sua carreira de forma geral. O filme, ao que tudo indica, seguirá na trilha que o celebrizou: longos planos distanciados dos personagens, situações á beira do caricato, um fino sentido de humor e uma perspetiva algo cáustica do ser humano.

Apesar disto, o realizador se situa como um otimista e consegue rir de situações que não são tão claramente cómicas ao espectador. Numa das sequências, um plano de longa duração assiste um pai a amarrar os atacadores da filha sob uma chuva torrencial. Ele acha graça a essa situação como reflexo de um egocentrismo muito humano por parte da menina…

Já o caráter fortemente existencial que marca o seu cinema está muito presente numa longa cena passada dentro de um autocarro onde, em diferentes momentos e situações, os personagens comentam com o seu desconhecido vizinho do lado: “Não sei o que eu quero”. As respostas, ou a falta delas, encaminham o filme para um debate sobre o sentido da vida e as diferentes “amostragens” do seu cinema. “De facto”, diz ele, “trabalho sempre com distintas dimensões da existência. Na cena do autocarro foi possível trabalhar com os mais diferentes tipos”.

Roy Andersson

About Endlessness traz um elemento novo, a voz em off. Andersson conta que a grande inspiração veio das 1001 Noites, particularmente da personagem de Sherazade. Esta tinha de entreter um rei com uma nova história todas as noites para não ser decapitada. Assim, todos os pequenos episódios e vinhetas, como a de um homem que inspeciona apaixonadamente a namorada a tomar champagne (foto de topo), começam sempre com “Eu vi…”. “Nunca tinha usado esse recurso da voz off”, diz. “Experimentei e decidi manter. Achei que dava outra dimensão à história”.

Andersson também continua, como já demonstrou em momentos do seu trabalho, preocupado com a extrema-direita. “Hoje em dia temos que ter muito cuidado com o que dizemos para não potencializar a ascensão da extrema-direita. É uma obrigação de todos os artistas lutar contra isso”.

About Endlessess chega cinco anos depois de Um Pombo Pousou num Ramo a Refletir na Existência (A pigeon sat on a branch reflecting on existence), que completava a sua “trilogia dos vivos”. Estes surgiram no século XXI depois de uma longa ausência no grande ecrã após o seu bem-sucedido filme de estreia, A Swedish Love Story, de 1970, ser seguido por um flop, Gillap, de 1975, que condicionou as suas possibilidades de obter financiamento. Depois de dedicar-se criativamente à publicidade, Andersson retorna ao cinema com a referida trilogia – composta ainda de Canções do Segundo Andar (Songs from the Second Floor, 2000) e Tu, que Vives (You, The Living, 2007).



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