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«Graves Without a Name» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Rithy Panh prossegue na sua demanda pessoal e igualmente identitária de um Camboja que ousa em não ser esquecido, principalmente no seu registo cinematográfico. Depois de As Imagens que Falta e Exil, o realizador retorna às suas histórias pessoais para exorcizar o “Karma pesado do Camboja”, os horrores cometidos por um regime intolerante e ditatorial e os testemunhos (para além do seu) que perpetuam o fantasmagórico tecido da ocultação.

São relatos impressionantes e raros, novamente sublinhado pela insaciável busca do autor em conduzir todo uma memória em imagens, que aqui não faltam. Existe a criação dessas, nem que seja pela diálogo direto da fotografia, as únicas provas de vidas passadas e obliteradas. São pessoas exclusivamente para serem “espancadas e deitadas foras” (o termo segregativo de Vay Tchaol), prisioneiros de quotidianos forçados que as reduzem a objetos viventes, arrastados por uma automatizada noção de sobrevivência (os avisos quanto à necessidade de “comer carne para sobreviver” que levam a não intencionais atos de canibalismo) e contidos aos seus “mundinhos” de miséria (quando o sal se torna a traição de um grupo de subsistência). Elementos que vão contaminando a poesia atentada de Panh que avança em paralelo por cemitérios sem dono, ao encontro de espíritos condenados a uma eternidade em vão. E por entre as florestas, que o próprio evidencia neste documento, habitadas por almas violentadas, as árvores sangram, as mediums choram pelos seus entes queridos e as máscaras confundem cada vez mais com a vegetação.

Lutando com as imagens, continuo a chorar”. Graves without a Name é um objeto pessoal, sentido e vivido, e com isso, não desfazendo a sua devoção pelo cinema, Rithy Panh vai além do simples relato, vai atrás da imagem que possa fazer jus a tais palavras. Felizmente, visto que falamos de realizadores vinculados nas suas causas e História, Panh não é um Wang Bing, evita a sua passividade nua e aufere dignidade ao seu ativismo.

Tirei tantas imagens para me esquecer que estava morto

Hugo Gomes

«Chaco» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Para contextualizar, o termo “chaco” nasceu dos Incas, é a denominação para território de caça, e Danièle Incalcaterra (de origem italiana) herdou cerca de 5.000 hectares de tal na zona do Paraguai. Determinado a contrariar as tendências de um país com escassas politicas ecologicas, Incalcaterra decide preservar esse pedaço de terra e fundar, com isso, a reserva natural de Arcadia. Porém, desconhecendo, desencadeia uma guerra entre os lobbys presentes num sistema vicioso e corrompido.

Em Chaco [filme] deparamos com um registo de pouca linguagem cinematográfica e com grande aptidão televisiva (convém reafirmar não encontramos o facilitismo formatado da reportagem noticiosa), porém, o entusiasmo desta luta filmada insere-se na sua própria temática, uma denúncia subtil perante as politicas arcaicas e das contradições impostas pela própria. É um objeto desgastante, no bom sentido da palavra, revelando o cansaço de um homem determinado mas constantemente desafiado por uma autentica “bola de neve”.

Chaco nunca se verga pela ecologia politizada de um Al Gore, ao invés disso tende em mascarar-se como um thriller kafkiano, um Processo burocrático e caricato, para investir num olhar inquisidor à própria politização ecológica. E quando falamos em politicas e anexos, salienta-se uma determinada sequência onde Incalcaterra se reúne com empresários, pronto a convence-los de “patrocinar” a sua ideia de Reserva Natural. Antes do encontro começar, um destes [empresários] dirige se aos restantes sob as trocistas palavras: “bem, temos que nos virar à esquerda”. Em Chaco, somos obviamente conduzidos à interminável batalha de preservação (ou ativismo, conforme o que realmente acreditamos), mas subtilmente o filme abre portas para a reflexão do quanto politizada é a ecologia ou, infelizmente, é assim vista.

Será que as questões ambientais, a conservação de um património natural para gerações futuras, é uma cedência politica? Não poderíamos, ao invés, identifica-los como civismo ou ética do Homem para com o seu Planeta? Enfim, a verdade é que em Chaco, mostrando com antecedência a agravante da desflorestação, o ambientalismo é uma luta politica. Senso comum, a nossa derrota enquanto seres vivos.

Hugo Gomes

«Terra Franca» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Presenciar a passagem da curta para a primeira longa metragem é uma sensação semelhante a de uma familiar exclamar com surpresa: “olha só o quanto cresceste!”. Nesse sentido podemos afirmar que Leonor Teles cresceu ao ponto de conseguir ritmar um filme com 80 minutos de duração, tudo, tendo como antecedente uma "prank" que (in)voluntariamente se converteu num ato ativista contra o preconceito e a discriminação [A Balada de um Batráquio].

Obviamente, como já devem saber desta história, o experimento foi recompensado com o Urso de Ouro da Curta-Metragem no prestigiado Festival de Berlim (não é para menos). Em Terra Franca, Teles não amadureceu devidamente como esperávamos, no que requer a encontrar uma nova linguagem no panorama documental português, mas convenhamos que toda esta pesquisa filmada é vista com entusiasmo, até porque a realizadora tem um golpe de sorte (ou não, mas quem sou para determinar a consciência do gesto). Essa fortuna deriva do seu “objeto” de estudo, um achado por si.

Falamos de Albertino Lobo, um pescador que reside numa antiga comunidade piscatória no Tejo. O filme tende em acompanhar as quatros estações, na prática, um ano da sua existência. Tinha tudo para falhar, mas novamente buscando o ponto crucial, temos uma personagem e tanto (referimos isto com um sorriso elogioso). Desde a sua humildade que nos leva a um certo tradicionalismo português, até ao olhar expressivo de um homem que teme o futuro, mas que o vê não como um trilho individual, mas algo conjunto e sobretudo familiar (a família que se vai construindo e reconstituindo).

Albertino é um lobo do mar … vá … um lobo do rio, constantemente dividido pelo magnetismo da água e dos elos afetivos que o aguardam em terra. O homem castiço faz o filme e Leonor Teles segura-o. É um bom sinal e, ao contrário do protagonista, o futuro poderá não ser um “bicho de sete cabeças” para a nossa realizadora. A ver vamos.

Hugo Gomes

«Soplo de Vida»: citando o noir em "niegro" de Bogotá

  • Publicado em Artigos

Luis Ospina pode muito bem ser referenciado como um denunciador de uma realidade ocultada, a divulgação de uma pobreza extrema na Colômbia, captada para o grande ecrã, o qual atravessou o Globo, conquistando assim os mais impares cinéfilos. A sua forte conotação politica sempre o colocou debaixo de muitos olhares, da admiração e até ao desdém, tudo orientado para o tornar num dos mais importantes cineastas da América Latina, hoje uma voz esquecida, mas sem com isso negada essa relevância. Os documentários da precaridade e de contexto social, as “reportagens” disfarçadas de ensaios cinematográficos, são tidos como as suas marcas autorais, porém, não só a realidade imprimida fez parte do seu currículo. A ficção também está no cardápio, neste caso duas fitas que realçaram, acima de tudo, a sua fervorosa cinefilia.

Se em ’82 concretizou um exercício de terror que misturava vampiros com a habitual crítica à sociedade colombiana com Pura Sangre, foi em ’99 que se despediu por fim desta visão ficcional. E fê-lo sem o saber em antemão, com uma homenagem ao seu género predileto, o noir. Tal como o próprio afirma com tamanha convicção, o cinema de género sempre lhe deu o prazer e dentro desse leque - diversas vezes restringido a prazeres pecaminosos por parte de muitos cinéfilos -, Ospina decide aprofundar os seus conhecimentos quanto ao universo do chamado “filme negro”. Citando o incontornável cinema norte-americano, os franceses e porque não os exemplares mexicanos, Soplo de Vida é fortalecido como uma revisão dos códigos dos mesmos, mas evitando por completo o formato de best hits.

Invocando à memória os célebres antepassados de Hollywood, damos por nós transportados para uma Bogotá suada e suja, embelezada pelas cores quentes que nos remetem automaticamente aos trópicos ao invés das cidades frias, enovoadas e contrastadas com as pálida pele dos seus artistas na indústria que tão bem conhecemos. A voz-off está lá, como “manda a sapatilha”, a narração por parte de uma policia renegado, agora convertido em investigador privado de gabardine "Melvilleano", Emerson Roque Friero (como gosta de ser chamado), pronto a recontar o seu Caso. Colocamos em maiúscula para enfatizar o signo detectivesco, o Caso é a essência da medula de qualquer investigador do noir. Singular e ao mesmo tempo pluralizado e homogéneo, este, com toda a previsibilidade, envolve uma mulher (quiçá, duas).

Por entre flashbacks, dentro de mais flashbacks (a separação entre as camadas temporais distingue-se pela sua fotografia), Soplo de Vida percorre todos os lugares-comuns do subgénero; as femme fatales (Flora Martinez), as identidades trocadas, a corrupção e politicas à mistura, a amargura melancolizada, as juras de amor ditas em cenários criminosos e a água ardente (aqui a substituir o eterno whisky com gelo). Mesmo sob o efeito de contraste, Luis Ospina mimetiza os códigos, fazendo questão de relembrar ao espectador que o que está a ver não foge da mera reciclagem. “Os mortos são todos iguais”, assim é afirmado na morgue perante as vitimas da violência mundana, citação que encontra cumplicidade num outro desabafo: “os homens são todos iguais, não existem nem bons, nem mais, apenas homens”. Possivelmente, poderíamos terminar por aqui colocando um ponto final na equação, é um mero exercício, não de estilo, mas de memória cinéfila e Ospina passou o teste, confundindo-se com o protagonista, caracterizado como “um homem de princípios (…) e de fins”, de ideias e de resoluções.

Crimes passionais e a ambiguidade costumeira, dois elementos (que não chegamos a mencionar acima para o bem do suspense) que se entrelaçam com um humor algo caricatural e brejeiro, retalhado pelas lembranças e transformados em idiossincrasias para qualquer freguês jubilar (o universo queer colombiano atado a um curioso olhar "Almodovariano"). Por fim, as doses claras de inserção social, um prisma imundo dos necessitados e dos incapacidades (mais uma vez fere em contraste com o formalismo americanizado). É a marca de Ospina a pesar neste cenário onde ninguém sai ileso, até mesmo o "punchline"" confiante ousa em ferir os mais “novatos” com alusões sexualizadas:  “sempre me privei dos investigadores privados” .

Soplo de Vida não esconde os seus baixos recursos e a tendência de “desenrasque” da sua produção. O realizador afirmara que os seus filmes são “baratos” e que a liberdade tem um preço baixo a pagar. Infelizmente, mesmo sob o rótulo de pechincha, esta série B foi um fracasso no box-office, forçando um desinteresse de Ospina na ficção e regressando ao que tão bem soube fazer até então, mostrar a Colômbia desconhecida e proibida. Diremos que, com o auxilio do Génesis, esta sua derradeira e segunda ficção, resolve-se como um “faz-de-conta” a entidades divinas, cujo sopro atribui vida a uma moldado pedaço de barro. Por outras palavras, tudo não passa de uma experiência.

Nós paranoicos, sofremos o dobro

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