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Jorge Pereira

«Welcome To Acapulco» (Bem-vindo a Acapulco) por Jorge Pereira

  • Publicado em Critica

Há filmes que muitas vezes parecem ter sido enterrados naquelas cápsulas do tempo e desenterradas décadas depois com a ideia que são "a última coca cola no deserto" e a excelência da demonstração do Kitsch cinematográfico. Welcome To Acapulco é isso mesmo, um pseudo trash na forma de uma comédia de ação ao estilo dos anos 80 e 90', que usa o exagero para entregar um produto de entretenimento "fun". O grande problema aqui é que bastam dez minutos para estarmos absolutamente saturados e até perplexos com o que estamos a ver e ouvir.

O protagonista lidera esse desafeto do espectador perante o filme. Michael Kingsbaker é Matt, um designer de videojogos que após uma noitada, em vez de viajar para o estado norte-americano do Novo México, acaba por acordar a bordo de um avião a caminho de Acapulco (no México). Sem saber bem como foi parar ali (numa espécie de introdução ao estilo "A Ressaca"), Matt é logo confrontado no aeroporto por dois homens que esperam que ele lhes entregue algo, denominado por eles como "The Package" (O pacote). Ora, nem ele, nem nós, sabemos o que é esse "Package", mas agentes da CIA, gangsters e até um senador têm interesse na "coisa" e tudo farão para consegui-la.

O problema desta "comédia" não está particularmente no enredo, nem nos atores, mas sim na forma como o realizador orquestra e idealiza todo um conceito que no papel até podia ter bastante graça e engenho. Desde os separadores a introduzirem personagens ao estilo dos videojogos, a referências cinematográficas disparadas em todos os sentidos, até ao pobre trabalho de montagem, direção de atores e até na escolha de planos, Welcome To Acapulco revela-se um desastre completo que vai muito além do seu guião derivativo repleto de redundâncias e repetições.

As personagens são estereótipos exagerados de si mesmo, seja no caso do paranóico protagonista, seja da agente da CIA Adriana (Ana Serradilla), seja do gangster Michael Madsen, ou da personagem ultrapassada e ridícula entregue a William Baldwin (e os seus olhos azuis). Nada por aqui funciona, mas tudo é repetido até à exaustão pois Guillermo Ivan (o cineasta) crê que tudo está ótimo. Mas, efetivamente, não está e damos por nós perante um dos filmes mais enfadonhos e ridículos - que nem consegue ser uma autoparódia decente ao subgénero em que se insere - da memória recente.

Esperemos que os atores referidos - a quem se junta o veterano Paul Sorvino - tenham sido bem pagos para participarem "nisto", pois efetivamente é extremamente deprimente terem de ficar associados a um dos piores filmes que veremos em 2019. A evitar a qualquer custo.


Jorge Pereira

«Campo» por Jorge Pereira

  • Publicado em Critica

O campo de tiro de Alcochete, localizado na bacia sedimentar dos rios Tejo e Sado, conta com uma área de 7.539 hectares e foi criado por decreto régio a 24 de março de 1904 como polígono de tiro de artilharia.

Aí, e para além de treinos militares, não só da Força Aérea mas também de outros ramos das Forças Armadas, militares e missões fictícias coabitam com fauna (perdiz, sisão, piadeira, raposa, gineta, coelho bravo, veados), flora (predomina o sobreiro e o pinheiro manso) e até alguns pastores isolados que com alguns animais em pequenas habitações sem eletricidade nos fazem pensar como as disparidades populacionais existem mesmo à porta da cidade de Lisboa.

É nas filmagens de todos esses elementos que constituem o "campo" - numa orquestração documental onde encontramos treinos militares, alguns deles com a participação de forças internacionais, observações e entrevistas a elementos que visitam o espaço, como ornitólogos, astrónomos amadores, e o pessoal administrativo que gere toda a área - que Tiago Hespanha faz uma viagem guiada e pessoal pela previsibilidade, pelo mundano, mas também ao caráter trascendental dos diferentes universos que coabitam e contribuem para a maior abrangência do significado da palavra campo.

A seguir as imagens, Hespanha vai narrando e musicando o seu trabalho com tiradas que tanto vêm de Franz Kafka como de Carl Sagan, incutindo ainda algumas deambulações metafísicas, onde não faltam elementos da mitologia grega (o mito de Prometeu, por exemplo), ao mesmo tempo que nos tenta situar a nós, Homens, neste pedaço de "campo" dentro de um Mundo maior.

O resultado final deste filme-ensaio extremamente pessoal é uma análise e desconstrução curiosa a um microcosmos, não só analisando a vida interna do local, mas a relação dele com o mundo em redor, seja a cidade de Lisboa que se vê intensamente nas celebrações do ano novo, sejam os vizinhos do campo de tiro que ocasionalmente ouvem as explosões ou os aviões a passar e a fazer estremecer as suas casas.

É uma viagem também excitante, poética e hilariante, mas também não escapa em alguns momentos à forma entediante, monótona e desapaixonada quando viaja às rotinas dos homens, do mundo do trabalho, das atividades de lazer e até da própria natureza, a única testemunha de milhares e milhares de anos de aproveitamento humano deste "Campo".


Jorge Pereira

«Replicas» (Réplicas) por Jorge Pereira

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A história do cientista que desafia os limites da ciência, e que nesse processo vai enlouquecendo progressivamente no meio das suas obsessões, encontra neste Réplicas um novo ensaio, mas numa era em que vivemos atolados de bons exemplos da ficção científica no cinema e na TV (em particular no streaming, com séries como Black Mirror a brilharem e Twilight Zone a ser repescado), Réplicas soa a um série B reciclado dos anos 90 que o máximo que consegue fazer é transformar-se num guilty pleasure pelos nomes envolvidos.

Aqui, Keanu Reeves é o cientista Will Foster e logo nos primeiros momentos percebemos que os seus estudos e experiências implicam a transferência da consciência de um soldado falecido para um corpo artificial presente na mesma sala. Se pensaram em filmes como Robocop, O Sexto Dia e Chappie  - e são só três exemplos cinematográficos de derivados do subgénero Mind Uploading) muito trabalhado e desgastado na literatura Sci-Fi e Cyberpunk - enquanto leram o que escrevi, naturalmente que chegam à conclusão que não há nada de novo por aqui neste Réplicas, um objeto escapista que recicla material para abordar de forma muito ligeira temas como a Inteligência Artificial, clonagem e a ética e moral que as envolve, isto enquanto simultaneamente se tenta entregar um thriller de ação onde amor pela ciência e família se cruzam numa avenida de lugares comuns.

Quando essas transferências de consciência não correm bem, um evento trágico vai obrigar o nosso Will a usar o seu laboratório para criar réplicas da família mais próxima. O resto que aí vem é o esperado, com o patrão de Will a ameaçar acabar com as experiências, agentes secretivos a circundar e a ameaçar o território da ação do nosso cientista e o "clonado" a questionar a sua existência e o seu "renascimento".

Tudo por aqui é entregue de forma muito pobre, atabalhoada, pouco espetacular, já vista, nada sugestiva, caindo-se ainda no erro de por demasiadas vezes sermos invadidos de explicações absurdas mascaradas de ciência (que na verdade são fantasias) com o uso de frases dignas de um escritor amador a aventurar-se num género que não conhece muito bem, mas que tem uma lista referencial das principais obras.

No meio deste caos, e de um trabalho decente mas pouco expedito do realizador Jeffrey Nachmanoff, "salva-se" Reeves com a sua expressão única habitual a invadir o grande ecrã, dando algum charme e carisma a um filme que por demasiadas vezes nos faz mais rir inadvertidamente pela preguiça do guião e erros que vão muito além dos chamados "plot holes", do que em nos fazer questionar intelectualmente a matéria.


Jorge Pereira

«Le Brio» (O Poder da Palavra) por Jorge Pereira

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Adiado constantemente em Portugal, o filme francês Le Brio, de 2017 (até já tem o seu remake americano marcado), chega finalmente aos nossos cinemas com mais uma história em que costumes, hábitos e interesses culturais entre duas pessoas colidem para no final chegarmos a conceitos de aprendizagem mútua, aceitação e reconciliação (das personagens e das classes).

De um lado temos o veterano Daniel Auteuil no papel de um professor conhecido pelos seus preconceitos e arrogância. Um "facho", muitos diriam, um instigador e provocador cujo objetivo é a evolução do conhecimento, diriam outros. Do outro lado da barricada temos Camelia Jordana como Neïla Salah, uma jovem dos subúrbios de Paris que tenta fugir aos estereótipos no seu desenvolvimento pessoal. No meio de lugares comuns, racismo incrustado e implantação da meritocracia sem olhar à igualdade de oportunidades - que não existe efetivamente para grande parte da população (não afeta só as minorias) - o duo vai ter de unir esforços para participar num concurso académico de retórica em que Jordana representa a Faculdade e Auteil terá de a preparar para isso.

O maior problema de Le Brio - mais uma espécimen do cinema social francês atual, que vive num regime de fábulas a passar mensagens de tolerância - é toda a previsibilidade de uma narrativa extremamente linear e sem desvios ou variações que nos conduz de A para B e para C na mais vulgar das caminhadas. Auteuil e Jordana, juntamente com os seus diálogos, conflitos e interações (muitas vezes silenciosos), são o melhor que o filme tem para oferecer, realçando-se alguns momentos do texto, verdadeiramente inspirados, que nos permitem prosseguir interessados na ação, mesmo sabendo como e quando tudo vai acabar.

Na essência, Le Brio tem consciência da sua forma crowd pleaser e joga com ela de maneira comercial sem ter medo que o espectador sinta uma forte improbabilidade no desenlace. É um filme que quer deixar-nos bem com o mundo, passar mensagens de multiculturalidade, integração social e cultural, transmissão de conhecimentos e beleza da linguagem.

Tudo bonito, tudo um retrato da sociedade atual, da França separada em dois, mas igualmente tudo dentro da ilusão superficial da "fé na humanidade restaurada" para vender bilhetes como quem vende "likes" nas redes sociais.


Jorge Pereira

«Triple Frontier» (Operação Fronteira) por Jorge Pereira

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Nos primeiros momentos deste Triple Frontier (Tripla Fronteira) somos confrontados com dois mundos diferentes em pleno combate numa pequena cidade sul americana. Aí, tal como em Black Hawk Down ou em qualquer filme dos EUA sobre a Guerra do Vietname, vemos a chegada do operacional Oscar Isaac num helicóptero ao som de Metallica e o explosivo "From Whom The Bells Tolls", isto enquanto se sobrevoa uma cidade amontoada e desordenada. Ele vai juntar-se a um grupo de agentes da lei que vai invadir um espaço onde estão vários traficantes.

No lado dos criminosos, ecoa o tema "Caderas" dos Bomba Stereo. O tom pesado da banda norte-americana entra em contraste completo com a sonoridade "electro vacilón", "electro tropical" ou "cumbia psicodélica" da banda Colombiana. Agentes operacionais obscuros e narcotraficantes colidem numa imersão de violência, onde não faltam ações para além da lei (tortura e assassinatos incluídos), não muito diferentes dos velhos ataques a fortes medievais, filmes do faroeste ou golpes de mercenários..

E é importante mencionar o tom de Western em modo tropical deste Triple Frontier - até na escolha de planos, de locações (ai, aquele desfiladeiro) -, filme que tanto vai beber a clássicos como O Tesouro de Sierra Madre, como a Narcos, como ao estilo "heist" citadino ou até no deserto, como na comédia dramática Três Reis.

Desse assalto à fortaleza (que na verdade é uma discoteca com ar de "bar dançante" da província), descobre-se a localização do líder dos narcotraficantes, o qual está escondido no meio da selva brasileira com vários milhões de dólares escondidos, pois hoje em dia, quem é que acredita nos bancos?

O plano começa então a ser delineado, mas não se espere uma incursão ilegal, mas patrocinada de forma institucional ao estilo Sicario, mas antes um roubo à antiga preparado pela personagem de Oscar Isaac juntamente com mais quatro antigos colegas das Forças Especiais (Ben Affleck, Charlie Hunnam, Garrett Hedlund e Pedro Pascal), cada um com outras profissões e  cada um com mais ou menos desalento com a vida  (Affleck tem a personagem mais espessa). 

O resto é a típica história de homens cujos planos não correm exatamente como esperavam, sendo necessário sobreviver e escapar a novas contrariedades atrás da "linha do inimigo". É aqui que o cinema J.C. Chandor, tal como nos seus filmes anteriores (Margin Call, A Most Violent Year), entra pelos caminhos habituais da viagem à psique e aos valores morais de homens sobre pressão (Quando Tudo Está Perdido, outro exemplo do cinema de Chandler), volvendo a temas como a ganância e a ética.

Nisto, Triple Frontier é um filme relativamente denso, energético e imprevisível na sua essência, mas peca por ser extremamente derivativo e por não saber transmitir todo um espectáculo cinematográfico como se sentia que podia fazer. E embora nunca seja aborrecido, descompensado ou desconcertado no balanço entre ação e introspeções morais,  e de Chandler - mesmo sem brilhar - demonstrar uma boa consistência na sua carreira, Operação Fronteira é essencialmente apenas mais um num género cada vez mais prolífero no Cinema e TV, não conseguindo assim se destacar diante deles.

No final, é inevitável a pergunta. Como seria este filme se tivesse sido assinado por Kathryn Bigelow (Ruptura Explosiva; Estado de Guerra) ou José Padilha (Tropa de Elite; Robocop), nomes que estiveram ligados ao projeto em diferentes fases de uma conceção atribulada e em que se falava que o filme seguiria "a lavagem de dinheiro e as atividades criminosas, logo após o 11 de setembro, no espaço primordial da tripla fronteira entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina, onde o rios Iguassu e Paraná convergem"?


Jorge Pereira

«Snu» por Jorge Pereira

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Há um plano muito curioso neste Snu. O ator Pedro Almendra, que interpreta o papel de Francisco Sá Carneiro, dirige-se ao país perante uma câmara de televisão. A lente de Patrícia Sequeira, veterana na TV, "novata" no Cinema, filma os dois: Almendra e a câmara de TV, simultaneamente exibido a imagem do verdadeiro Sá Carneiro nessa mensagem ao país. Este verdadeiro "efeito de distanciamento", lá diria Brecht, faz o espectador estar consciente que está perante um objeto artistico, sendo curiosa a decisão profundamente consciente da realizadora em querer misturar imagens reais e imagens encenadas neste seu filme sobre o grande amor entre Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro.

Perto das cinebiografias típicas que acompanham a vida das personagens distribuindo os tópicos em camadas, analisando com mais ou menos profundidade cada uma delas, Sequeira foca-se essencialmente nesse amor, onde não faltam especulações, sonhos, alegrias, dores e sofrimento, engenhos que arrastam tudo o resto, onde se inclui a vida profissional e o percurso de ambos na década de 1970: ela, como editora da Dom Quixote com princípios muito frontais sobre social democracia; ele, um político em ascensão a liderar a direita democrática no Portugal pós-revolução ainda em convulsão.

É neste trajeto que encontramos também o bom registo dos atores, pois quer Inês Castel-Branco, quer Pedro Almendra incorporam as personagens carimbando-as de conhecimento (os tais factos históricos, validados por Helena Matos), charme, e acima de tudo carisma, criando entre si uma química amorosa que nos convence da sua relação e daquilo que mina as suas personalidades.

E a realizadora filma tudo sem restrições no estilo, sem uma régua e esquadro ou um livro carregado de apontamento das convenções do género. Ao invés, ela navega entre o puro cinema, a novela de luxo, o filme videoclipe (onde não faltam onirismos), o registo documental, mas sempre com um toque poético, lírico e apaixonado, trespassando isso não só pelo uso das palavras do outro Sá Carneiro (o Mário), mas também através de uma banda-sonora onde Surma carrega o misticismo dos enamorados (emora algumas vezes, exageradamente na imposição às imagens).

Em suma, estamos perante um intressante exemplar de cinema comercial português sem cair na excessiva linguagem de TV, e num registo que foge suficientemente da presunção pictórica de parte do cinema de autor português, o qual esconde falta de criatividade e arrojo "com mãos cheias de nada" na forma de silêncios, contemplações, vazios narrativos e referências que deliciam os sentidos, mas que ora são derivativos, ora ocos, perfeitos para críticos analisar "em modo horóscopo".


Jorge Pereira

«Las Herederas» (As Herdeiras) por Jorge Pereira

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São cada vez mais raros os filmes que abordam a vida, o amor e a sexualidade nas mulheres com mais de 50 anos. Se o cinema norte-americano praticamente desistiu disso, numa espécie de ditadura de se focar em levar adolescentes e jovens adultos à salas, na Europa, e particularmente em França, as abordagens a cinquentonas ultimamente vêm associadas a recentes divórcios e são tratadas como comédias de autoajuda para garantir o box-office e algumas gargalhadas (Coucou Alexandra Lamy, Karin Viard e Miou-Miou).

Seguindo de certa forma os passos de Gloria do chileno Sebastián Lelio, o paraguaio Marcelo Martinessi acompanha neste seu Las Herederas a história de Chela (Ana Brun), uma mulher que vê a sua companheira de longa data, Chiquita (Margarita Irun), detida por fraude. As suas vidas outrora pacíficas e folgadas já tinham levado um abanão quando começaram a ter de vender o seu espólio para sobreviver, porém, agora, com Chiquita na cadeia, Chela é forçada a novas rotinas, novos hábitos e a viver a sua vida como nunca o fez: sozinha.

O retrato de Chela é feito com uma enorme candura por Marinessi, revelando-a uma pessoa doce e complacente, um pouco diferente de Chiquita, facilmente descrita como a mais dominante e pragmática, aquela que geriu as suas vidas até então. Paralelamente a esta viagem ao íntimo de Chela, o cineasta vai traçando uma crítica ao sistema judicial (dívidas transformadas em fraude) e uma ácida sátira social ao mundo desta mulher, o de mulheres burguesas nostálgicas que a usam agora como o seu táxi pessoal. Nelas destaca-se a soberba Pituca (María Martins), aquela que propicia os melhores momentos de humor, e a sensual Angy (Ana Ivanova), que vai abanar emocionalmente e sexualmente Chela com a sua chegada, fazendo todas elas entender que Chela tem muito mais potencial e é muito mais desejada do que alguma vez o pensou.

Um belo primeiro trabalho de Marcelo Martinessi nas longas-metragens, convenientemente premiado em Berlim com o prémio Alfred Bauer, onde é ainda de destacar o cuidado na direção de arte e na cinematografia, que frequentemente enclausuram a nossa Chela ao seu passado e à sua transição para um novo fôlego e rumo.


Jorge Pereira

«Les Bonnes Intentions» (As Boas Intenções) por Jorge Pereira

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De boas intenções está o inferno cheio, lá diz o ditado popular, mas neste novo filme de Gilles Legrand (L'odeur de la mandarine), conhecido produtor e argumentista, elas vêm quase todas de Isabelle (Agnès Jaoui), a nossa protagonista, uma mulher depressiva burguesa que se casou com um refugiado Bósnio, leciona francês a imigrantes e procura contrariar todo o sofrimento do mundo, nem que para isso tenha de sacrificar e desprezar a sua vida familiar, em particular na relação distante e despreocupada que mantém em relação ao marido e aos filhos.

(Mais uma) comédia social francesa a invadir os nossos cinemas, uma tendência cada vez mais avassaladora no lado mais comercial dessa cinematografia (que até já levou a queixas de Jean Pierre Jeunet), As Boas Intenções distinguem-se das demais porque entre as habituais caricaturas e clichés existe uma verdadeira paródia a uma determinada classe média altruísta, totalmente imersa em causa humanitárias, mas que corroi paralelamente todos os relacionamentos em seu redor, não sabendo agir como mãe, filha ou neta.

Chegando a ser ácido na génese e razões por trás dessa benevolência extrema, reflexo de insatisfações próprias e inseguranças, Jaoui (É sempre a mesma cantiga; O Gosto dos Outros), mestre da comédia dramática, à frente ou atrás das câmaras (reconhecida argumentista e cineasta), entrega como sempre uma personagem levada entre neuroses, paixões e obsessões, numa verdadeira jornada apaixonada aos seus próprios vazios internos, ao seu sentimento de culpa, às suas ambições, que derradeiramente a fazem desorientar e descarrilar na carreira e vida pessoal.

Com ela nessa viagem seguem vários atores, alguns não-profissionais, que entregam uma autenticidade encenada nos lugares comuns da vida dos migrantes, entre gags onde se questiona igualmente os próprios clichés e a moralidade das escolhas. Nesse elenco, vale a pena mencionar a presença do português Nuno Roque (no papel de um brasileiro), e destacar Alban Ivanov (dono de uma escola de condução), que já tinha dado nas vistas em O Espírito da Festa e no mais recente Ou Nadas Ou Afundas, o qual entre graçolas e perspetivas de vida entre o pragmático e o cínico entrega com humor um reflexo oposto ao de Isabelle na sociedade.

Por tal, As Boas Intenções do título resvalam para o texto e filme suficiente sarcasmo e ironia - sem nunca perder a humanidade e coração - para tornar esta numa experiência interessante; e sem ser necessário entrar em manipulações ou miserabilismo humano para nos emocionar.


Jorge Pereira

«The Boy Who Harnessed the Wind» (O Rapaz Que Prendeu o Vento) por Jorge Pereira

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A história verídica de um rapaz do Malawi - William Kakwamba - que de forma a escapar da pobreza e fome mete mãos à obra e constrói, com muito poucos recursos, um moinho de vento que apoiará as culturas agrícolas da sua família, já tinha chegado aos cinemas em 2014 através de William and The Windmill, documentário de Ben Nabors que conquistou o Grande Prémio no Festival South by Southwest ou, SXSW, como é mais conhecido.

Baseado no livro homónimo escrito por Kakwamba - o rapaz que se transformou num engenheiro e que mais tarde deu palestras de como superar os obstáculos da vida -, a estreia na realização de Chiwetel Ejiofor é competente, mas nunca consegue sair das amarras de um filme "feel good" encorajador e previsível sempre num mesmo tom tíbio incapaz de trespassar um verdadeiro suspense sobre o desenrolar dos eventos dramáticos.

É certo que há muita paixão na história que Ejiofor apresenta, e que o belissimo trabalho da fotografia de Dick Pope e da montagem de Valerio Bonelli trazem até nós uma África que se vê, sente e até cheira; onde a aridez, secura e posteriormente a calamidade alimentar fomentada pelas cheias são construídas num registo muito sensorial. Mas o pulso monótono do realizador revela sempre pouco arrojo, preferindo uma forma modesta, explicativa e até didática "by the book" sobre os problemas naturais e políticos da época (e os seus reflexos nas pessoas), que verdadeiramente ocupar-se em retirar esta história de superação da esfera dos clichés e dos lugares comuns dos filmes do mesmo género.

E embora exista uma boa prestação dos atores, com destaque para a imponente Aissa Maiga (a Agnes, mãe do rapaz), The Boy Who Harnessed the Wind quase nunca sai da verdadeira mediania, o que o transforma num objeto interessante de consumo fácil, nunca manipulador, mas que na verdade, e enquanto Cinema, não acrescenta nada ao livro que adapta.


Jorge Pereira

«Isn't It Romantic» (Não é Tão Romântico) por Jorge Pereira

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No filme francês da Netflix, Eu não sou um homem fácil, um machista, após dar uma cabeçada num poste, acorda numa realidade paralela onde as mulheres assumem a liderança da sociedade e são consideradas o sexo forte. Comédia ligeira que ainda assim conseguia ser minimamente sarcástica e não conformista, o filme funcionou e até o seu final deixava em aberto uma possível continuação.

Em Não é Tão Romântico é a vez de Rebel Wilson, igual a si mesma, ou seja, em modo "one woman show", dá uma cabeçada numa estrutura de uma estação do metro, após uma tentativa de assalto, e "desperta" dentro de um mundo onde todos os clichés das comédias românticas se aplicam. 

Aquele que poderia ter sido um ensaio curioso sobre o papel da mulher nas comédias românticas, dos "invisíveis" e da própria sociedade, transforma-se rapidamente numa paródia mais interessada em gags momentâneos à la Wayans e num show reel das capacidades de Rebel Wilson na comédia stand-up e de carregar sozinha um filme às costas. Pelo caminho, passa-se uma mensagem urgente, mas sempre trabalhada de forma ligeira, repetitiva e superficial, onde chega mesmo a existir a comparação entre os tais "invisíveis" da sociedade e a construção de um parque de estacionamento como peça central do desenvolvimento de um hotel (nunca ninguém liga aos parques de estacionamento, mas eles são importantes e podem ser bonitos...). 

E apesar existirem alguns momentos onde o humor realmente funciona, especialmente quando a fita viaja entre referências cinematográficas das comédias românticas [Pretty Woman; Notting Hill; O Casamento do Meu Melhor Amigo] todo o filme revela-se ineficaz nesse dilacerar dos clichés, que são fruto de uma indústria incrustada numa sociedade patriarcal e competitiva com profundas responsabilidades do sistema capitalista. 

Assim, e na verdade, temos aqui um falso ato de contracultura para, no sistema industrial de cinema em que se insere, vender ideias soltas, frases feitas, que embora fundamentais para a mudança soam apenas a um mecanismo artificial e primário de cativar um target específico de público para arrecadar audiência. Na verdade, Não é Tão Romântico é a versão cinematográfica do derradeiro triunfo do capitalismo: vender merchandise de Che Guevara e ficar rico com isso. 

Tudo por aqui soa a marketing, a propaganda camuflada de ativismo, até ao próprio sistema das comédias "made in hollywood" que se tenta criticar, fazendo-se precisamente o que esses filmes fazem. Essa falta de densidade, verdadeiro sentido crítico e mordacidade, transformam este num objeto escapista de pequena escala com uma atitude claramente industrial. Sim, é uma anti-comédia romântica que acaba por sê-la e um ato de contracultura comparsa do sistema que tanto critica, alienando o espectador com uma falsa resolução.


Jorge Pereira

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