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Festival de Marraquexe: Cinema autoral com charme marroquino

Rojo

Cabe a Marrocos, anualmente, desde o século XXI, dar uma espécie de arremate no panorama mundial dos festivais de cinema, com um evento dedicado à celebração das estéticas que vão além das normas morais e das convenções de linguagem. Marraquexe é o lugar. Depois que demos loas aos Leões de Veneza, às Conchas de San Sebastián, ao fish-and-chips frito pelo BFI London Film Festival e ao troféu Redentor do Festival do Rio, o circuito internacional de mostras competitivas de cinema segue adiante via África, agora atraindo os holofotes da media para a indústria marroquina. Vem aí a 17ª edição do Festival de Marraquexe (30 de novembro a 8 de dezembro), que terá 14 jóias em concurso, que lutarão pela Estrela de Ouro e honrarias afins votadas por artistas de peso.

Embora não se fale português por lá, o Brasil entra na equação de produtores do thriller argentino Rojo, de Benjamin Naishtat, sensação do último Festival de San Sebastián: saiu de lá com troféus de melhor direção, ator (Dario Grandinetti) e fotografia, para o pernambucano Pedro Sotero, de Aquarius (2016). Rojo concorre com Las Niñas Bien, de Alejandra Márquez Abella (México); The Load, de Ognjen Glavonic (Sérvia); Diane, de Kent Jones (EUA); Red Snow, de Sayaka Kai (Japão), Joy, de Sudabeh Mortezai (Áustria); Look At Me, de Nejib Belkhadi (Tunísia); Vanishing Days, de Zhu Xin (China); Une Urgence Ordinaire, de Mohcine Besri (Marrocos); Akasha, de Hajooj Kuka (Sudão); All Good, de Eva Trobish; e La Camarista, de Lila Avilés (México). A essa programação em concurso soma-se uma seleção de títulos de peso em mostras internacionais mas que vão para Marraquexe fora da disputa oficial, como o drama americano Wildlife, de Paul Dano, e a experiência narrativa colombiana Pájaros de Verano, de Ciro Guerra e Cristina Gallego.

Wildlife

Quem vai julgar os concorrentes à Estrela de Ouro deste ano será uma equipa formada por atrizes (Dakota Johnson, Ileana D’Cruz), artistas visuais (Joana Hadjithomas), cineastas (Lynne Ramsay, Laurent Cantet, Tala Hadid e Michel Franco) e o ator alemão Daniel Brühl. A presidência desse júri foi confiada ao cineasta James Gray, que está finalizando o thriller espacial sci-fi Ad Astra, com Brad Pitt (e produção do brasileiro Rodrigo Teixeira).

Vai ter coisa boa fora da disputa também. Antenado com o acirramento das discussões raciais no mundo, a partir da história da amizade entre um motorista preconceituoso interpretado por Viggo Mortensen e um pianista negro vivido por Mahershala Ali, Green Book, um dos filmes mais cotados na disputa ao Oscar 2019, vai contar com gala no festival marroquino. Wildlife, de Paul Dano, também. Tem espaço para Portugal na seleção paralela The 11th Continent: entramos ali com a coprodução com o Brasil Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, já laureada em Cannes (prémio especial do júri na seção Un Certain Regard) e no Festival do Rio (troféu Redentor de melhor direção). E vai ter ROMA, de Alfonso Cuarón no grande ecrã também.

Green Book

Marraquexe promete um presente à cinefilia mundial na edição deste ano ao passar em revista a obra de uma pioneira da modernização política e narrativa da produção audiovisual: a nonagenária cineasta Agnès Varda. Ela será homenageada com direito a palestra e retrospetiva: Le Bonheur: A Felicidade (Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim de 1965) e Sans Toit Ni Loi: Sem Eira Nem Beira (Leão de Ouro em Veneza, em 1985) estão entre seus filmes mais célebres, já na mira do evento marroquino. Aos 90 anos, a cineasta de Visages, Villages (produção feita em parceria com o fotógrafo JR, laureada com o troféu L’Oeil d’Or, a Palma de Ouro dos documentários, em Cannes em 2017) ganhou, há cerca de um ano, o Oscar honorário pelo conjunto de uma carreira iniciada em 1954. Depois da estatueta, vem ganhando tributos pelo mundo fora (como este de Marraquexe) e tem aproveitado essas viagens para idealizar um novo projeto, a ser produzido por sua filha, Rosalie Varda, e co-realizado por Didier Rouget. Em 2019,  espera lançar uma nova longa-metragem, ainda sem título, que registra uma jornada dela de Paris até Los Angeles e, de lá, para a China, passando em regista 60 anos de imagens produzidas a partir de um instinto autoral. 

Venho de uma época em que era a única cineasta em atividade num ciclo cheio de homens. Cá entre nós, acho que o número atual de mulheres cineastas ainda é muito aquém do que a arte e o mundo. Os meus filmes são femininos e aportam à realidade a perceção de que as mudanças são graduais e que dependem da integração de todos”, disse Agnès em um recente colóquio em San Sebastián.

Além de Agnès, o Festival de Marraquexe vai homenagear a atriz Robin Wright, a atual estrela da série House of Cards, e o ator Robert De Niro, que está a finalizar o esperado filme de máfia The Irishman, com o seu parceiro de múltiplos sucessos Martin Scorsese. Aliás, o mítico cineasta também irá estar presente no evento, para uma palestra sobre sua estética e sobre a arte de produzir filmes, além de comemorar (com atraso) os 20 anos de Kundun (1997). Vai ter também um tributo à prata da casa, homenageando o realizador marroquino Jillali Ferhati, consagrado na Europa desde os anos 1980 com filmes premiados em Cannes, como Poupées de Rouseau.  



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