Menu
RSS


Pawel Pawlikowski e o seu corredor de paixões

Tem amor nos horizontes e nos ecrãs da Polónia, anunciado como espaço de conflito: é a "Guerra Fria".

"Histórias de amor são histórias de resistência e de perseverança", disse o realizador Pawel Pawlikowski à imprensa europeia quando saíram as indicações ao Oscar 2019, que mudaram, para sempre, sua reputação aos olhos da indústria.

Pátria de mestres da imagem como Krzysztof Kieslowski, Andrzej Wajda e Roman Polanski, aquele pequeno país outrora sufocado pela Cortina de Ferro conseguiu, graças ao virtuosismo de Guerra Fria ("Zimna wojna"), que chega às salas do Brasil no dia 7 de fevereiro, um espaço inimaginável para si na disputa pelo Oscar 2019, apesar de todo o prestígio da sua filmografia aos olhos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. À força do sucesso internacional de Cold War, título internacional do drama romântico pilotado por Pawel Pawlikowski, o cinema polaco está disputando em três das principais categorias dedicadas a longas-metragens de ficção na festa hollywoodiana: melhor filme estrangeiro, melhor fotografia (em PB, clicada por Lukasz Zal) e - a mais surpreendente das indicações, divulgada no dia 22 de janeiro - melhor realização.

Guerra Fria

"Cinema é o espaço de combate à dispersão destes nossos tempos", disse Pawlikowski, na estreia da longa na França, onde vem lotando o circuito alternativo MK2 e outras salas das ruas de Paris.

No ativo desde 1987, quando começou a dirigir, fazendo documentários para a TV, ainda sob a influência da União Soviética sobre sua nação, Pawlikowski ganhou fama internacional em 2015, quando a sua longa metragem anterior, Ida, foi oscarizada entre as produções faladas em línguas distintas do Inglês. Mas agora, em disputa com medalhões dos EUA como Spike Lee (por Blackkklansman) e Adam McKay (por Vice) pela estatueta dedicada aos cineastas, o cineasta nascido em Varsóvia, há 61 anos, terá uma merecida consagração aos olhos do Cinema, o que coroa a estrada de sucesso iniciada em Cannes, onde o seu filme, em luta pela Palma de Ouro, deu a ele o troféu de melhor diretor.


Guerra Fria

"Distraídas pela tecnologia, com a cara enfiada no cineasta, as plateias de hoje perderam a conexão com a simplicidade, o que me levou a querer construir uma narrativa que pudesse ser sintetizada pela lógica das histórias de amor. Uma história sobre a perseverança da paixão", disse Pawlikowski ao C7nema na conferência de imprensa de Guerra Fria na Croisette, onde esta "love story" cheia de contratempos políticos e afetivos entre o maestro Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig), condensada em 1h29m, começou uma trajetória internacional de premiações: já foram 26 até agora. "Já escrevi o guião pensando nas soluções visuais que pretendia tomar no pós-produção, entre elas a aposta num visual em preto & branco cheio de contrastes, diferente do que Lukasz e eu construímos em Ida. Não queria me repetir ao narrar uma história sobre duas pessoas que lutam para superar os obstáculos do amor".

No anúncio dos concorrentes ao Oscar, a classe cinematográfica esperava ouvir o nome o ator Bradley Cooper entre os indicados a melhor diretor, pelo seu desempenho no comando de Assim Nasce uma Estrela, um fenómeno de bilheteiras (custou US$36 milhões e faturou US$ 09 milhões) coroado com oito indicações.

No entanto, Pawlikowski foi citado em seu lugar. Raras vezes um diretor que não seja americano, nem radicado lá, foi indicado na categoria relativa aos cineastas: foi o caso do argentino (naturalizado brasileiro) Hector Babenco (por O Beijo da Mulher-Aranha); de Fernando Meirelles (Cidade de Deus), também do Brasil; e do austríaco Michael Haneke (Amor). Desta vez, a disputa inclui ainda um grego, Yorgos Lanthimos, por A Favorita, e Cuarón, do México, por Roma. Mas estes dois já eram esperados; o atual artesão do P&B da Polónia, não, apesar de toda a boa acolhida, de público e crítica, a seu doído romance, ambientado no auge da Cortina de Ferro na Europa.


Pawel nas filmagens de Guerra Fria

"Escrevi este filme há anos, antes de 'Ida' sair, querendo homenagear meus pais e o tempo deles. Amar é um exercício de superação de obstáculos. E, para quem vem da Polónia, a era da Guerra Fria, a partir dos anos 1950, foi uma época de percalços, políticos e morais. Mas não fiz uma narrativa nostálgica, nem na idealização, nem na demonização do passado. O passado tem seu lugar. A Polónia de ontem tem o seu lugar. O meu lugar é outro: é o lugar de uma língua que, mesmo numa diáspora pelo mundo, preserva-se na sua identidade nacional, como memória de corpos, de sensações. 'Guerra Fria' é a viagem do polaco pelo mundo, na pele de duas pessoas que se amam, e que se atraem e se repelem pelas vaidade do amor", diz Pawlikowski, que filmou Guerra Fria com um orçamento de €4,3 milhões, e já viu o filme somar US$15 milhões nas bilheteiras, até agora.

Realizador de filmes multinacionais de boa acolhida na Europa, como o thriller anglo-francês Estranha obsessão, de 2011, com Ethan Hawke e Kristin Scott Thomas, Pawlikowski se fez notar, pela primeira vez, em 2004, com Amor de Verão (My Summer of Love), sucesso no Festival de Berlim com a relação homoafetiva de duas jovens (Natalie Press e a atual Mary Poppins, Emiliy Blunt), ao som de Gilberto Gil e Caetano Veloso ("Três caravelas"). "Tenho gostos muito católicos, ou seja, muito bem comportados na música... mas, às vezes, eu surpreendo. Enchi de ruídos 'Guerra Fria' para ilustrar a tensão do casal", disse Pawlikowski, cujo atual projeto é a adaptação do romance Limonov, de Emmanuel Carrère, sobre um poeta russo que se torna um revolucionário.


Natalie Press e Emily Blunt, Amor de Verão

Existe uma centelha revolucionária na relação apaixonada entre Wiktor e Zula em Guerra Fria: é dele a responsabilidade de reger um espetáculo musical que marque época no Leste Europeu sob o jugo soviético. No meio da produção de uma peça teatral de canto e dança, com um coro de mulheres, Wiktor descobre Zula e tomba de amores por ela, mesmo sob a rígida vigilância do Estado, que não quer um envolvimento capaz de comprometer a execução de uma obra de arte encomendada pelo governo. Mas quem disse que o coração sabe obedecer. Apaixonados, os dois ganham o mundo, em fuga, indo parar na França e em outros países, em um périplo marcado por desavenças e reconciliações, que se estende por 30 anos.

"A França tem um lugar no imaginário do cinema como uma terra de paixões, uma casa para os casais de refugiados. Quis descontruir esse lugar comum, colocando lá um rival para Wiktor, mostrando o desencanto de Zula, fazendo de Paris um ambiente que destrói amores", contou Pawlikowski, indicado ao Prémio David Lean de Melhor Direção no Bafta, o Oscar inglês – um troféu cujo nome evoca o realizador de belíssimos romances como Breve Encontro (1945) e Dr. Jivago (1965). "Tenho muito respeito pela tradição polonesa do cinema moderno, feita dos anos 1960 em diante, sobretudo a obra de Andrzej Wajda, mas não me integro com alguns de meus conterrâneos que lutam para reviver as lições dos mestres. Estou mais próximo da obra de um checo radicado nos EUA, como Milos Forman, do que dos grandes diretores polacos. Passei anos radicado fora da Polónia, no mundo, em diversos países. Isso me faz querer buscar um cinema universal, ainda que fiel à língua que me formou".



Deixe um comentário

voltar ao topo

Contactos

Quem Somos

Segue-nos