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Guillermo Del Toro: «Monstros são espelhos do real»

Foto.: Rodrigo Fonseca

Desde a conquista do Leão de Ouro de Veneza, há um ano e meio, graças a The Shape of Water (A Forma Da Água), que ainda lhe deu um par de Oscars, o mexicano Guillermo Del Toro (El Espinazo del Diablo) cansou de ser perguntado sobre analogias entre a figura do monstro e o escapismo. Por isso, o realizador de 54 anos já chegou ao Festival de Marraquexe com uma resposta pronta sobre o assunto: “As criaturas monstruosas não são uma fuga; elas são um espelho para a realidade, que partem da ideia de parábola para debelar a nossa resistência e a nossa intolerância neste momento em que a Humanidade vive uma guerra de ficções. As narrativas ficcionais sobre o que é certo e o que é errado dividiram o mundo em preto e branco, deixando a essência para aquilo que é cinza. O monstro está no cinza”, filosofou Del Toro em entrevista ao C7nema, em Marrocos, cujo evento cinéfilo mais importante corre a todo vapor, na sua 17ª edição, desde sexta-feira.

Envolvido com uma adaptação de Pinóquio (ambientada na Itália fascista) para filmar como um longa de animação em stop-motion, o realizador acaba de terminar um roteiro para a DC – Warner sobre o supergrupo Justice League Dark, com a feiticeira Zatanna, o mago John Constantine e o Monstro do Pântano na sua equipa. Mas o seu olhar sobre super-heróis não é dos mais calorosos, como atesta na entrevista a seguir, ao C7nema, diretamente de Marraquexe, onde ministra um colóquio sobre a arte de filmar nesta segunda-feira.  

Quando veremos um filme da Marvel ou da DC com a sua autoria?

Entrei no Justice League Dark porque eles são monstros. “Gente boazinha” não me interessa. Cresci cercado de fábulas em que pessoas difíceis, de perfil torto, saem para uma jornada de autodescoberta. Mais ou menos como se dá com Pinóquio, que vou filmar. São essas as figuras que me interessam: pessoas que precisam de se tornarem boas para serem amadas.

The Shape of Water

Podemos esperar referências à animação japonesa em Pinóquio?

Gosto muito da arte japonesa de bonecos, o bunraku, assim como gosto da tradição das máscaras, na cultura grega. Mas há uma influência grande da japanimation em mim. Cresci numa época em que Astro Boy, de Osamu Tezuka, passava na TV. A inocência do Doraremon também sempre me encantou entre os desenhos japoneses. Mas vai ser um filme político: Mussolini + Fascismo + boneco de madeira que quer ser gente. Some as parcelas e veja o grau político da edição.

Os Oscars de A Forma Da Água celebrizaram a sua estética mas também foram um endosso para o seu trabalho como produtor. O que é para si a experiência de produzir? 

Quando fiz El Espinazo del Diablo, vinha de um filme americano bem problemático, Mimic, mas tive Pedro Almodóvar como diretor. Um dia perguntei-lhe quem faria o corte final de El Espinazo ...” e ele riu: ‘Então, és o realizador, o corte final precisa ser o seu’. Quase chorei ao ouvir aquilo. Ele produzia colocando uma série de ideias na mesa, mas dava-me o direito de escolher só aquelas que quisesse, por acreditar esteticamente na força delas. Ele dizia: ‘As minhas ideias são estas, o filme é teu”. Filmar é algo que pode satisfazer a sua curiosidade. Produzir é elencar aquilo que te dá curiosidade e confiar a outro que saiba dirigi-lo melhor do que você. A questão é escolher bem o realizador. É como escolher elenco. 

Como é que a atual situação política na fronteira do México com os EUA impacta a sua perceção de mundo, como mexicano residente em Los Angeles?

Moro numa casa cheia de monstros a uma hora de Los Angeles. Veja bem... Claro que isso me incomoda. Essa questão de ver crianças enjauladas... há muita desumanidade, causa-me dor. Mas há a perceção de algo ainda mais perverso nessa prática que é culpabilizar o outro: uma estratégia antiga e excludente contra os mexicanos.



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