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Júlio Bressane: «Estamos engatinhando num destino natural do Homem, que é ir na direção da mediocridade»

Sedução da Carne

O maior autor da língua portuguesa em solo brasileiro, em todos os tempos, Machado de Assis (1839-1908), vai ressurgir nos cinemas pelas mãos de um especialista da sua obra, que já fez dois grandes filmes baseados no universo do autor (A Erva do Rato e Brás Cubas) e tem um terceiro projeto a ele associado: Júlio Bressane.

Aos 72 anos, o realizador planeia transpor Dom Casmuro em filme, com o título de Capitu e o Capítulo. “Vamos ver qual será a viabilidade”, diz o cineasta carioca, que acaba de ser laureado em Portugal, no LEFFEST, em Lisboa & Sintra, com o Grande Prémio do Júri para o seu inédito Sedução da Carne, uma das atrações mais badaladas de Locarno em 2018. Trata-se de um trabalho visualmente poderosíssimo mas que, apesar de suas virtudes e do bom respaldo recebido na Europa, pode não estrear em circuito no seu pais. “Não há nada previsto para o lançamento no Brasil. Nem sei se terá, dada a dificuldade do circuito. Queria tentar pelo menos contar com um lançamento na TV”, diz o cineasta, que foi aplaudido no Lido, há uma década, com Cleópatra (2007), revisão tropicalista de um mito da História... e do Cinema.

Julio Bressane

Há uma máxima recorrente nas entrevistas de Bressane: “Para mim, três pessoas é uma multidão”. A frase é uma referência ao facto de os cinemas "pipoca" reagirem mal ao experimentalismo radical do realizador de obras de culto como O Anjo Nasceu (1969) e Filme de Amor (2003), que faz muito espectador mais acomodado deixar a sala de exibição com pouca paciência diante da apoteose filosófica que caracteriza a obra desse realizador que há cinco décadas conta com o respaldo das maiores mostras de cinema do mundo, em especial Cannes e Veneza.

Tenho me impressionado com o fato de ‘Sedução da carne’ já ter sido convidado para nove festivais, a começar por uma sessão inaugural em Locarno, na Suíça, em agosto. Vou este fim de semana para a Itália para uma projeção dele no Festival de Avelino, um evento criado em 1959 pelo Pasolini, e sigo para uma exibição na Galeria Nacional de Roma, ligada a uma exposição. Em Avelino, ele integra uma homenagem que vão fazer a mim, exibindo junto ‘O Beduíno’, que fiz em 2016”, explica Bressane, cujo cinema de invenção tem um grau de aceitação altíssimo no exterior, talvez mais do que o de qualquer outro realizador nacional da sua geração, pois todos os filmes que fez nos últimos 20 anos tiveram espaço nobre nos ecrãs do Velho Mundo. “A ideia de ‘político’ para definir o que eu faço é temerária, pois é um clichés que não dá conta de que tudo na realidade é político. A questão urgente que se faz notar numa discussão como essa é outra: o problema na educação é a sua maior carência. E diante delas, e do atual estado de nossa cultura, estamos engatinhando num destino natural do Homem, que é ir na direção da mediocridade”.

Beduíno

Se houver mesmo dificuldade de estreia para Sedução da Carne, ela é menos inerente aos feitos estéticos de Bressane e sim aos engasgos da política cultural brasileira. Esta nova longa-metragem do realizador de Matou a família e foi ao Cinema (1969) é um monólogo. A sua trama tem como combustível o desempenho fenomenal da atriz Marina Lima no papel de Siloé, uma escritora que compartilha as suas digressões literárias e angústias existenciais com um papagaio, colocando bifes crus sobre sua pele a dado momento. O talento dela é parte das razões por trás da ovação recebida pelo filme em Locarno. Na noite desta quarta-feira (28 de novembro), o filme vai encerrar a edição de 2018 da Semana de Cinema, mostra no Rio de Janeiro com foco em exercícios de liberdade formal de linguagem audiovisual. A projeção será  às 21h, na Estação NET Botafogo 1, antecedida pela curta-metragem El Meraya, de Melissa Dullius e Rodrigo Jahn.

Siloé guarda uma experiência dupla de tempo, de um lado com a marca do passado e, do outro, com a ideia do que possa ser um futuro. E ela tem que resolver a sua existência nesse jogo entre passado e futuro. Há, na ideia de passado, uma referência de lugar onde ainda possa haver alguma esperança”, define Bressane. “Ela lida com a memória, este depósito de profecias”.



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