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«The Godfather» à moda de Marco Bellocchio

O mítico realizador do ‘nuovo cinema’ italiano dos anos 60 revê a sua obra ao largo de um projeto sobre a máfia.

Nem Paolo Sorrentino, nem Matteo Garrone ... para citar alguns medalhões pop do cinema italiano... conseguiram despertar mais a curiosidade da imprensa do seu país do que o veteraníssimo Marco Bellocchio com seu novo projeto, Il Traditore, sobre um pilar da máfia. Na longa-metragem, o ator Pierfrancesco Favino interpreta o temido Tommaso Buscetta (1928-2000), fazendo uma radiografia do crime. Em paralelo, o cineasta corre festivais com um curta, La Lotta, lançado na Quinzena dos Realizadores de Cannes. É uma história de 16 minutos sobre um jovem italiano caçador de nazis.

Mito autoral do cinema europeu, com 41 filmes de prestígio num currículo iniciado em 1961,  Bellocchio misturou política e psicanálise na sua filmografia, marcada por cultos como I Pugni In Tasca (1965) e Vincere (2009). São poucos os cineastas do seu porte que se arriscam no universo das curtas. O motivo desse interesse encontra-se na entrevista a seguir, realizada na produção de La Lotta.

Qual é a Itália de onde você vem?

Eu nasci numa Itália fascista, numa família de nove irmãos. Recebemos uma carta de felicitações de Mussolini, o ditador do nosso país, dando os parabéns aos meus pais por terem tidos tantos filhos, dando à Itália braços para trabalhar. E fora esse jogo do fascismo, havia a Igreja que cerceava tudo, que patrulhava as relações, em especial no momento em que o Comunismo surgiu como uma luz para a minha geração. A Itália de hoje não é mais aquela, mas ainda sofre com contradições do jugo fascista. Esta história nasceu para expurgar esse fantasma, que volta no meu atual projeto sobre a máfia.

Em 1967, o filme La Cina è Vicina valeu ao senhor comparações elogiosas com o cinema de Godard. E, na época, o senhor teve uma relação muito próxima com os realizadores brasileiros que fizeram a revolução narrativa chamada Cinema Novo. Na sua formação, em Roma, chegou a ser colega de escola do carioca Paulo Cezar Saraceni, o cineasta de Porto das Caixas, morto em 2012. Que lembranças guarda do Brasil daquele período?

O futebol é uma arte que nos une, mas tínhamos os filmes como paixão. A amizade é a principal recordação que tenho, sobretudo pela falta que sinto de Paulo e do também cineasta Gustavo Dahl, meus dois grandes companheiros de liceu no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma. Aquele era um momento de juventude, no qual desfrutávamos com plenitude da euforia da criação e da revolução estética, com sonhos de usar a Arte como um instrumento de transformação. Eram tempos de guerra. Éramos todos muito jovens e compartilhávamos do entendimento de que as mudanças deste mundo passam pela questão social e pela lucidez política.

La Lotta

Qual foi a sua maior lição?

Foram muitas. Ali, eu descobri contradições que formam o Brasil. E dali saiu a centelha a partir do qual Paulo Cezar fez grandes filmes como A Casa Assassinada. Paulo era o homem da poesia em nossa escola.  

Como avalia o cinema que se faz hoje na Itália? Ainda existem surpresas?

Tem momentos que surpreendo comigo mesmo, por não querer parar, na minha idade: 78 anos. A produtividade ainda me espanta. E o número de jovens talentos que começam a fazer os seus filmes com camaras digitais. Quando comecei a filmar, nos anos 1960, os meu país era um organismo audiovisual vivo, que revolucionava os ecrãs com os mestres do neorrealismo pela busca de uma linguagem transgressora, próxima do que se vivia nas ruas, nos campos. Eu pertenci a uma geração de prodígios, que conseguiram lançar seus primeiros filmes ainda muito jovens. Como espectador, vi muitas gerações de grandes cineastas italianos a estabelecerem e sofri com a partida dos grandes realizadores, como Ettore Scola, por exemplo. Mas a grande surpresa é ver o quão rápido nós conseguimos filmar, finalizar e lançar filmes na Itália nos dias de hoje.

Antes, como era?

Em 1965, quando fiz o meu primeiro sucesso, I Pugni In Tasca, nós conseguíamos, no máximo, concretizar uns três filmes em circuito ao longo de um ano. Hoje, percebo que nós lançamos quase 50 títulos. Isso tem a ver com a revolução digital, mas também tem de relacionado com o fôlego da atual juventude que, para o meu prazer e a minha honra, reporta-se com carinho ao meu trabalho. É emocionante saber que os jovens ainda se sensibilizam com obras como La Cina è Vicina. O que deixa alarmado, contudo, é pensar que esses filmes ainda encantam não apenas por razões estéticas, mas porque os problemas que foram denunciados por ele prosseguem, imutáveis.  



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