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IndieLisboa: “Parte dos problemas do mundo vêm da interdição ao sexo”, diz Gustavo Vinagre

O filme brasileiro Lembro mais dos Corvos está em Competição no IndieLisboa. A primeira longa-metragem de Gustavo Vinagre, que já teve exibido uma curta no QueerLisboa, é uma conversa com a transsexual Julia Katharine – que fala do seu presente, de um passado de abusos e de como o cinema (o nome escolhido por ela é uma referência a Katharine Hepburn) salvou a sua vida.

Em entrevista ao C7nema o realizador falou sobre os tabus que vêm sendo derrubados e cercam a dramática história da sua protagonista em tempos onde não havia consciência de conceitos como pedofilia e “transgénero” – para além do método que lhe permitiu uma narrativa dinâmica dentro de uma proposta documental minimalista.

Há um momento em que a sua protagonista pergunta onde você queria chegar com o filme. Uma vez que há um interação entre você e a atriz, até que ponto você foi de facto construindo o filme na medida em que ele evoluía e até onde você tinha uma linha de chegada.

O filme tinha um argumento em que agrupei os assuntos que eu queria que fossem tocados. Claro, a Julia tinha total liberdade para improvisar e criar outras coisas e até contar histórias que não estavam programadas. Mas se as anedotas variavam muito, eu tinha perguntas que a faziam voltar ao assunto estipulado. Era um argumento um tanto híbrido, às vezes com diálogos inteiros escritos, às vezes apenas com indicações para os assuntos ou improvisações. Eu intuía desde o princípio que o filme seria uma longa, isso conhecendo as histórias da Julia e a nossa relação.

Mas não poderia afirmar isso, estava aberto a experimentar e aceitar o risco de que se a única noite de gravação não rendesse, talvez o filme se tornaria uma curta-metragem, ou pediria um segundo dia de rodagem o que acho improvável tendo em vista que gosto de trabalhar criativamente em cima de regras autoimpostas. E, nesse caso, a regra era: uma personagem, uma locação, uma noite. O ponto de chegada era o amanhecer, essa cena que é totalmente encenada, e em que a Julia toma para si, de certa forma, a direção do filme, olhando para o novo dia que raia lá fora.

Há uma parte da narrativa dela que traz a perspetiva em primeira pessoa de coisas que hoje tem nomes como “abuso”, “pedofilia”, “transgénero”, mas que na época não era visto desta forma, estas palavras não eram usadas, não havia consciência.

Palavras extremamente necessárias para que as pessoas se sintam contempladas em seus traumas e também em suas identidades. Afinal, quando nomeamos as coisas, elas deixam de ser tão tabu e se tornam coisas palpáveis, para que possamos pensar sobre elas. A maneira como a Julia fala dos abusos que sofreu é extremamente necessária, pois complexifica o abuso para além de um maniqueísmo comum quando se toca no assunto.

Ainda na questão do conteúdo, a atriz aborda de forma aberta questões ligadas à sexualidade. Essa frontalidade diverge de um mundo lá fora (no Brasil, mas não só) que parece querer voltar atrás nas liberdades conquistadas no que diz respeito à tolerância…

Todos meus filmes abordam e incluem o sexo em suas narrativas. O sexo é parte da vida, e ele não pode ser apenas uma elipse, como é na maioria dos filmes. Acredito que grande parte dos problemas do mundo vem da naturalização da violência e da interdição extrema ao sexo e tudo ao redor dele.

É um filme também sobre cinema. Este foi uma forma da protagonista lidar com as dificuldades e então há aquela encenação com referência direta a Ozu…

O filme é uma homenagem a todas as pessoas que se salvaram através da arte, que puderem resistir um pouco mais à crueza da realidade devido a capacidade de sonhar aprendida no cinema ou em qualquer outro tipo de expressão artística.

Conseguiu construir uma narrativa dinâmica baseada num único personagem e um único cenário. Utilizou recursos simples, como o “zoom” e uma montagem com planos de diferentes ângulos. Como foi essa construção?

Essa construção veio, a princípio, do facto do filme ser, ou querer ser, uma homenagem a Portrait of Jason, de Shirley Clarke. Interessava-me muito fazer um filme emulando outro, especialmente em se tratando de documentário. Sinto que a referência é muito bem vista dentro da ficção, mas que o documentário, por supostamente tratar do "real", não permite tanto a referência. Afinal, como uma obra que supostamente mostra a realidade pode emular outra que também supostamente faz o mesmo?

Pensei que usar o mesmo dispositivo que outro trabalho, que é uma grande referência no mundo do cinema documental, pudesse embaralhar ainda mais as nuances entre ficção e documental, trazendo para a própria forma do filme o questionamento sobre ele. Faço filmes para que sejam postos em dúvida, por isso a maioria deles joga com a encenação, com a verossimilhança, com a dubiedade. Para mim, é super importante que o espectador duvide dele, pois duvidar do filme é duvidar da vida.



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