Victória Guerra: "não me sinto viva com a autodestruição" - C7nema
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Victória Guerra: "não me sinto viva com a autodestruição"

Em Aparição, filme de Fernando Vendrell que adapta a obra de Vergílio Ferreira, Victoria Guerra é Sofia, "uma beleza demoníaca, como de uma criança assassina". Provocadora, dominadora e sensual, ela vai captar a atenção de Alberto (Jaime Freitas), o nosso professor que viaja para Évora e que continua a questionar a sua existência.

Tivemos a oportunidade de falar com Victoria Guerra, que não só nos falou da sua presença e preparação para Aparição, como também nos deu algumas indicações sobre o seu papel na série Três Mulheres (onde é Snu Abecassis) e no filme Le Cahier Noir, de Valeria Sarmiento, onde desempenha o papel de Marie Antoinette.
 

Como é que este papel surgiu e como é que se preparou para ser a Sofia de Aparição?

Eu recebi um convite do Fernando. Eu tive muita sorte porque existe um livro, uma obra literária riquíssima, muito bem escrita e que foi a base do meu trabalho. Foi a partir daí que eu criei, ou trabalhei sobre esta Sofia. É uma adaptação do Fernando, fomos guiados por ele. Ele tinha uma visão muito própria do que queria fazer, mas a obra do Vergílio ajudou-me muito nesta construção.


Jaime Freitas e Victória Guerra

E contribuiu ou o guião estava fechado?

O guião estava fechado, mas houve claramente sugestões e um trabalho em conjunto. Tivemos ensaios e tanto eu, como o Jaime e a Rita, em conjunto com o Fernando falamos da importância de cada cena. Filosofamos sobre o que queríamos que cada cena significasse. O texto é bastante literário, que é uma coisa que eu gosto - que ele tenha mantido esse lado mais literário do texto. Depois, nós criamos o outro lado. E foi um trabalho de conjunto. Nesse sentido foi. 

E acha que tanto a personagem como o próprio texto se adaptam aos tempos de hoje?

Claro que se adaptam. Basta querer. Acho muito importante que as pessoas não se esqueçam da literatura portuguesa. A língua portuguesa é muito rica. Vivemos na era do Hashtag e ... 

Não gosta desta era?

Não gosto, nem desgosto. Tem de haver espaço para tudo. Acho mesmo. A obra do Virgílio não foi alterada, nem nunca vai ser alterada, espero eu. Portanto, acho que o Cinema, como objeto artístico também tem de seguir certas regras. Não tem de ser tudo explosões e super-heróis.Isto é a adaptação desta obra literária. E acho que é importante manter-se este lado literário. E neste caso isto foi uma opção do Fernando. É verdade que esta obra pode ser adaptada de mil e uma maneiras diferentes e isso é a parte mais espetacular do Cinema e também na Literatura. É que todos os livros podem ser adaptados de mil e uma maneiras diferentes.

Esta é a adaptação do Fernando. É uma adaptação mais onírica, eu gosto disso, porque na própria obra senti isso nas vezes que a li. Nunca se percebe muito bem se estas pessoas existiram ou não existiram. Se existiram e se fizeram estas coisas ou tiveram estas atitudes, ou se foi tudo uma projeção do Vergílio. Acho que isso também se sente no filme. Este lado existencialista. Acho que o Fernando conseguiu isso. 

E identifica-se com aquela personagem em termos pessoais?

É assim, não. Identifico-me um bocadinho porque, eu não cresci na província, cresci em Loulé. É uma cidade, mas não deixa às vezes de ter um pensamento provinciano. E não há tanta oferta como em Lisboa. Sem ofensa, é uma cidade que eu amo mas que aos 15 anos eu sabia que não queria ficar lá. Pedi aos meus pais para vir para Lisboa, com a diferença que eles eram muito libertários e deixaram-me vir e ajudaram-me. Acharam uma ideia espetacular e perceberam logo "Claro que queres ir para Lisboa".

A Sofia também quer mais do que Évora lhe pode oferecer. Não quer casar, ter filhos, seguir as normas "básicas sociais". Eu também não quero. Nem nunca quis. A diferença é que eu não sou autodestrutiva como a Sofia. Eu não me sinto viva com a autodestruição. Ela sente-se. Ela encontra nessa autodestruição e na destruição dos homens em redor a forma de se sentir viva. O ser humano é autodestrutivo em geral, mas é algo inconsciente. No caso dela é bastante consciente. Por isso, não me identifico nada com isso dela.

Como foi trabalhar com o Vendrell? Sei que também trabalhou com ele para a televisão.

Sim, na verdade o convite para este filme surgiu um bocadinho por causa da série. Ele tinha falado comigo por causa da série e na altura estava a preparar o filme, e foi assim que surgiu o convite. Foi muito divertido. Foi uma experiência boa. 

Como foi preparação para esse papel da Snu Abecassis, um nome que está agora muito na moda, pois também vão fazer um filme sobre ela. Como é que estudou a personagem?

Preparar-me para a Snu Abecassis foi completamente diferente [do Aparição]. Era uma personagem que existiu. Li todos os livros, o livro da mãe - Jytte Bonnier- o livro da Cândida Pinto e a reportagem dela que fez há uns anos. Falei com o máximo de pessoas possíveis, amigos, a secretária dela...

A abordagem à personagem é no início da vida dela, quando ainda ta na casa dos 20 anos, ou seja, não fala nada da sua relação com o Sá Carneiro.

Não fala nada. Aliás, acho espetacular que façam um filme sobre essa altura da vida. A série acaba exatamente onde começa o filme, pelo que percebi. Eu acho isso espetacular. Ninguém conhece a Snu e ela teve um papel importantíssimo no país que nem sequer era o dela. O que ela fez foi incrível. As pessoas conhecem muito o lado amoroso e há até quem diga que o Sá Carneiro nunca chegaria a primeiro-ministro se não fosse ela. Isso não sei. A época que nós trabalhamos na série é a da altura da abertura da Dom Quixote.

A Snu, quando era miúda, ela e a família tiveram de fugir para a Suécia quando a Dinamarca foi invadida pelos alemães.Ela viveu em miúda com a ditadura, com o fascismo. De repente chegar a Portugal e perceber que estamos atrasados não sei quantos anos, para ela foi um choque cultural enorme. Ainda por cima os pais dela, a mãe dela que se divorciou, que se casou com um grande editor de livros. A mãe dela era jornalista, o pai dela também e lutavam pelos direitos civis e dos estudantes... eles chegam a um Portugal, analfabeto. E, ainda para mais, o padrasto dela, que era editor de livros, chegou a sentar-se com grandes autores que ganharam o prémio nobel. Por isso, ela ao ver isto [Portugal] neste estado foi assustador. E ela abriu a Dom Quixote exatamente por isso. Quis lutar contra a censura e editar o máximo de livros possíveis e fugir a essa mesma censura o máximo que podia. Também ajudou muitos portugueses e lutando pelos direitos dos estudantes, civis, das mulheres. E é esse lado que as pessoas não sabem. Eu própria confesso que não tinha noção que ela tinha fundado a Dom Quixote. Só percebi isso quando comecei a trabalhar na série. Não tinha a noção, que foi mesmo ela que disse sozinha "eu vou ajudar este país". 

Nota-se que esse papel entusiasmou-a mesmo!

Sim. Eu acho que esta série, que fala sobre três mulheres e cada uma delas tem um papel fundamental em Portugal. E a mim impressionou-me muito descobrir as coisas sobre a sua vida. E especialmente por ela não ser portuguesa. Isso, devo confessar, emocionou-me muito. Que ela tenha dado tudo o que tinha por um país que não era o dela. 

E por falar em outra personagem, vai ser a Marie Antoinette no novo filme de Valeria Sarmiento?

Sim, sim. Foi só um pequeno papel. (risos) 

Já está filmado?

Sim. 

E como foi essa experiência?

(risos) Espetacular. Marie Antoinette? Não há melhor (risos) 

Como é que preparou para esse papel, mesmo sendo uma pequena participação?

A Marie Antoinnete é dos papéis femininos mais incríveis... 

E dos mais fáceis de aceitar, estilo "Quer ser a Maria Antonieta?"...claro que sim, não é? (risos)

Óbvio que sim. (risos) E diverti-me imenso. 

O filme estreia este ano?

Não faço ideia, mas foi bom reencontrar a Valeria com quem eu comecei a trabalhar no Cinema. Portanto sim, foi fixe.

Sei, porque na altura falou um colega meu em Berlim, que fez parte das European Shooting Stars. Até que ponto é que isso deu-lhe ainda mais um empurrão para a sua carreira? 

Consegui mais agentes, uma agência francesa. Acho que também foi bom a nível pessoal. Ou seja, foi como um "estou no bom caminho, a trabalhar bem". Antigamente, todos os países enviavam um ator. Aí há dez anos eles deixaram de fazer isso e começaram a escolher só 10, a fazer uma seleção de 10 [de toda a Europa]. E há muitos anos que Portugal não ia. Portanto, eu vou ser muito foleira mas (risos) este meu lado patriota de representar Portugal deixou-me emocionada. Tocou-me muito. 

E tem novos projetos para além destes que eu falei?

Tenho algumas coisas em cima da mesa, mas como não tenho nada certo prefiro não dizer. 

Mas não filmou ainda mais nada?

Só a série. 

E como é que está a produção portuguesa neste instante? Está melhor de há anos para cá ou sente que anda aos tropeções?

Anda aos tropeções e ainda digo mais: a minha ida a Berlim (2017) ajudou-me nesse sentido. Ajudou-me, quero dizer. Éramos 10 e perceber que o ator alemão e o ator italiano estavam a preparar a primeira série Netflix. O italiano, essa primeira série da Netflix, ia rodar durante 8 meses 12 episódios. Nós aqui fazemos isso em 3 meses. Nós continuamos a lutar e a trabalhar. E isso eu senti lá e foi o que me chocou mais. 

É um pouco como a Snu, quando chegou cá e viu que estávamos muito atrasados...

Nós estamos muito atrasados, mas tem a ver com o financiamento. Sem dinheiro não é possível fazer milagres. O que eu sinto é que há cada vez mais produções, mais coisas a acontecer, mas... o dinheiro é o mesmo. E por motivos orçamentais há cortes nos textos -toda a riqueza que podia existir nas séries e nos filmes... Às vezes o público português diz: "mais um filme português e mais uma série, que podia ter ficado melhor". Nós não temos dinheiro para fazer melhor. E isso é tão frustrante. Senti muito isso quando estive lá fora [Berlim]. 

O que pode ajudar nisso são as coproduções...

Cada vez mais. Cada vez mais as coproduções. E isso também senti em Berlim. Todos os meus colegas, os filmes que tinham feito, eram coproduções. E eu própria, uma grande parte das coisas que fiz foram coproduções. Efetivamente isso, acho que é o futuro. É a melhor maneira de fazer as coisas bem feitas. Também estarmos a fazer as coisas só porque sim, não acho que seja solução. Acho que devemos continuar a trabalhar, mas... não há dinheiro. É muito complicado. Sinto mesmo isso.



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