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«Greta» por Rodrigo Fonseca

Ao contar à sua colega de quarto que encontrou uma bolsa perdida no metro e planeia sair em busca da dona, a jovem Frances (Chloë Grace Moretz) leva um raspanete da amiga, Erica (Maika Monroe), num sermão comportamental que evoca a cultura de paranoia dos Estados Unidos nos últimos 18 anos: "Você não sabe que as bagagens largadas em espaços públicos são um indício de bombas?". Esse é o começo de Greta, um filme B que marca a volta de Neil Jordan após sete anos de distância do écran. É um começo de insanidade institucionalizada: o conceito que há de guiar a narrativa.

Estamos diante de um suspense, uma trama de sustos. E esse assombro vem de atitudes fora da norma. Jordan, realizador irlandês que encantou os anos 1980 com Mona Lisa (1986) e A companhia dos lobos (1986) e chegou a seu apogeu em 1992, com Jogo de Lágrimas, demonstra ZERO intimidade com a cartilha em que se envolve. A prova disso é a gargalhada que contagiava a plateia em cenas que deveriam assustar e que dão um riso generalizado às multidões. Daí a classificação como B. Mas é um B de autor: o que põe de pé a história de Frances, acossada pela viúva má Greta (Isabelle Huppert, deliciosamente dúbia em cena), é o estudo sobre perversão que Jordan empreende a partir de situações que são arquetipais. Não é um thriller clássico. É semiologia. E um estandarte do Feminino.

Fetiche de Jordan, Stephen Rea está em cena, numa participação quase jocosa. O mesmo se dá com os demais homens que passam pelo caminho (profissional ou familiar) de Frances. Eles limitam-se a poucas falas e gestos pálidos. A exceção talvez seja o supervisor de modo rude do restaurante onde ela trabalha: este tem um ataque de nervos quando percebe o incómodo da sua funcionária diante da presença de uma senhora misteriosa, a tal Greta, que começa a segui-la por todos os cantos. Mesmo da parte de Greta, o coeficiente masculino é nulo: há a viuvez em jogo. São as mulheres - sobretudo Erica, que Maika interpreta com uma firmeza de surpreender olhares – que farão a diferença.

Tendo o prolífico Seamus McGarvey no comando da fotografia, Jordan aposta em tons claros, pastéis, amarelados para ilustrar o colorido delicado de um mundo que abre mão da subtileza ao tombar para a perda da lucidez. Greta é uma psicopata clássica: Isabelle faz dela, um Jason de rosto maquilhado, com direito a dedos cortados e armadilhas em forma de baú. Greta gosta de aprisionar jovens na sua casa, como se fossem bonecas. Atrai as moças a partir de bolsas perdidas em veículos de passageiros coletivos. Aquelas que forem boas de coração, irão atrás da dona, caindo no alçapão do risco. Frances é uma dessas figuras bondosas. Mas tem um limite. E tem espírito aguerrido. Não é uma menina de novela e, sim, um mulher empoderada.

O que vemos ao longo de 1h38 é um rocambolesco desfile de perigos, que Frances encara nas raias do pavor. A resistência dela não exclui o medo. Mas ela resiste, o que irrita Greta e tira a vilã da sua zona de conforto. Nesse risco mútuo, Jordan faz um estudo psicanalítico sobre a generosidade e os seus riscos, num debate sobre o individualismo em nossos dias.


Rodrigo Fonseca 



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