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«Blaze» por Jorge Pereira

É difícil caracterizar Blaze como um fracasso de Ethan Hawke, embora a narrativa encadeada muitas vezes mostre-se assoberbada de material redundante, difuso e que frequentemente entra em divagações, retirando com isso força a um biopic atípico na sua construção e paixão. E isto não só pelo foco na música e no seu criador, Blaze Foley, na sua relação com a sua musa, Sybil Rosen, mas também na questão dos artistas amarrados a uma autodestruição que eventualmente os conduz a mortes prematuras e à condição de mitos.

Hawke coescreveu Blaze com Rosen (Alia Shawkat), baseando-se em Living in the Woods in a Tree: Remembering Blaze Foley, livro de memórias que aborda a relação dela e de Foley durante dois anos e dez estados, mantendo sempre o espírito e a figura do músico country envolto numa neblina de mistério e incompreensão, um quase-sucesso cuja vida foi arrastada - para o bem e para o mal - pelo álcool e ego.

Hawke mostra grandes qualidades cinematográficas neste seu tributo (escolha de planos/direção de atores), sendo servido de perto por bons artesãos na cinematografia (Steve Cosens) e direção artística (Elissabeth Blofson), mas especialmente na construção e apresentação caleidoscópica desta história (bom trabalho de montagem de Jason Gourson). Porém, fá-lo sem grande noção de ritmo, revelando uma enorme dificuldade em cortar ou encurtar diversos momentos (um dos maiores problemas de cineastas novatos, o que já não se devia sentir ao terceiro filme na realização), tornado-o assim num trabalho repetitório, excessivamente pesado, muitas vezes aborrecido e derradeiramente interminável, onde duas horas parecem quatro, e onde um cinema mais sensorial seria recomendável.

No meio de tudo isto, o resultado é misto. Embora consiga o objetivo de focar e desfocar um homem que queria ser lenda e não uma estrela, o que mais sobressai por aqui são os atores, com Ben Dickey à cabeça numa verdadeira tour-de-force que expele a figura complexa de Blaze com esplendor e mistério, e Shawkat a entregar-se como o verdadeiro carburante, chama e o derradeiro olhar sobre o autor torturado.


Jorge Pereira



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