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«Beautiful Boy» por Hugo Gomes

Tendo em conta a temática comum entre os seus filmes, parece que Felix Van Groeningen possui uma questão paternal por resolver e a sua obra ressoa como um ensaio de voluntária psicanalise. Porém, fugindo a qualquer tentativa de divã, é de evidenciar essas questões presentes na sua recente filmografia, a começar pelo grandíssimo The Broken Circle Breakdown, o relato da dor vivida entre um casal que acaba de perder a sua filha, passando por Belgica, filme onde adapta as memórias do seu pai e agora com Beautiful Boy, que através de duas biografias costura a resistência e embate de um progenitor que lida com a toxicodependência do seu “rebento”.

Tendo como linha os livros de memórias de David e Nic Sheff (pai e filho), Beautiful Boy foge da corrente dos supostos filmes de superação pelo simples virar do holofote. A recordar exemplos como The Fault in our Stars (A Culpa é das Estrelas), que sob uma abordagem puramente adolescente, contraía a história de doença e resistência no epicentro da dor, elaborando com isso um filme egocêntrico, egoísta e demasiado martirológico (sem também falar das grandes “demências” deste trabalho pueril). No filme de Van Groeningen, à imagem de Broken Circle, o foco não é quem vive a dor, mas quem convive com essa dor, o segundo elemento da dita superação é sobretudo, neste caso, a família, que sofre e desespera e é nesse duo sentimental que nos identificamos (deixando com isso de serem meros ‘bonecos´ como são representados no anteriormente referenciado filme de jovens). E com este foco alternativo, o elemento de superação renuncia à sua apresentação como tal.

O que está em jogo não é mais esta esperançosa arte de motivação, Beautiful Boy desliza pela delicadeza, pelo arrasto e cansaço das personagens, um caso que soa ao de um milhão, e Van Groeningen fá-lo pela decência das mesmas (um imprescindível Steve Carell e um Timothée Chalamet a provar a sua garra de promessa). A composição de uma narrativa intercalada e temporalmente desmontada (como fizera com Broken Circle’) valida ainda mais a transfiguração representativa dos seus protagonistas, os “meninos bonitos” que se convertem “rebeldias autodestrutivas” e os pais presentes que ocultam o desejo de fuga fácil.

Sim, Beautiful Boy (referência direta ao single de John Lennon, novamente, demonstrando a “bom ouvido” do realizador) é uma obra que cospe na cara das milésimas Luas de Joana e afins, é a história da simplicidade (sem insinuar o simplismo do conflito), da confraternidade e mais uma vez da importância da paternidade. Mesmo que por vezes soe quase eunuca, impotente perante tais batalhas inesperadas. 


Hugo Gomes  



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