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«Shoplifters» (Uma Família de Pequenos Ladrões) por Hugo Gomes

Eis um filme à Koreeda, segundo quem deseja reduzir filmes aos gestos replicados dos seus criadores. Shoplifters é em certa parte um exemplo exato dessa fórmula, é um filme que prolonga os ensaios cometidos pelo nipónico em descortinar um Japão contra o senso comum vinculado nas importações e ao mesmo tempo uma revolta ao conformismo estabelecido por essa sociedade.

Vamos por partes. Buscando as veias sangradas por Nobody Knows (Ninguém Sabe, 2004), uma perpetuação que veio acompanhar as suas obras desde então, Koreeda lança-se sobre um revisionismo ao conceito de família, às estruturas pré-fabricadas desse seio que vão ao desencontro dos laços sanguíneos que os moldam. O cineasta insurge-se assim contra as tentativas rotulares que lhe foram impostas, materializadas na etiqueta de “o herdeiro de Ozu”. Pois bem, o sangue priorizado na árvore genealógica, o tradicionalismo ritualizado que confundimos com os traços etnográficos e culturais japoneses, são objetos de desaprovação pelo nosso cineasta, que o faz sem um pingo de acidez revolucionária.

A subtileza quase melosa é a arma furtiva para que as personagens se submetam aos ditos experimentos … e o espectador também. Depois seguimos na pista de outros “lugares-comuns” do cinema de Koreeda, entre as quais a inclusão social que já se encontrava presente no seu primordial Maboroshi (1995) ou as constantes críticas ao sistema judicial e prisional nipónico visto e revisto em Air Doll (Boneca Insuflável, 2009) e The Third Murder (O Terceiro Assassinato, 2017). Elementos para racionalizar e sobretudo sentir com a sensibilidade de alguém que sobressaiu do formato reportagem e documental, evidenciando com isso o detalhe da tendência observacional de Koreeda pelo seu redor e do invisível.

E falando em “invisibilidades” (se é que existe no meio cinematográfico), assim como grande parte da obra do cineasta, esta história de uma família “faz-de-conta” em subsistência através do subsidio social encontra a LÁGRIMA como palavra-chave. Aquele vestígio de sentimento que guardamos com a maior das reservas até ser libertada após as desamarras dos nossos passivos demónios. Uma. Basta apenas uma, que dita toda uma costura de subtileza e suscetibilidade para com o dito Japão canónico. E é essa lágrima, tida como dentro [nas personagens] e igualmente fora [no espectador], que nos encarrega de guardá-la com a maior das confidências.

A lágrima assim como as epifanias verbais são discretamente impostas numa narrativa que, ao contrário das suas personagens, não evade, mas sim, invade (nunca me canso de repetir em conformidade com Jacques Rancière: “o cinema é arte do sensível”). Poderá não ser a obra extrema de Hirokazu Koreeda (mesmo valendo-lhe a Palma de Ouro), mas esta é a sua mais amada tese. 

Hugo Gomes



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