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«Sulla mia pelle» (Na Minha Pele) por Jorge Pereira

Mais do que um filme que aborda a violência policial, Na Minha Pele - presente no último Festival de Veneza e atualmente no catálogo da Netflix - é um ataque cerrado a uma máquina judicial italiana burocrática e emperrada que vai passando um prisioneiro de esquadra em esquadra, de hospital a hospital sem realmente nunca se importar verdadeiramente com as visíveis marcas de espancamento que ele tem no corpo. E se alguns perguntam o que se passou para ele estar assim, e até chamam os paramédicos, o rapaz - com a ideia que seria condenado a um crime leve - vai negando o evidente, pois não queria de todo acusar os policias com medo de represálias e ser perseguido o resto da vida.

A assumir o protagonismo temos Alessandro Borghi do filme e da série Suburra, um jovem que superou o vício da heroína e que numa noite rotineira em que está num carro com um amigo é detido por estar na posse de 20 gramas de haxixe e duas de cocaína. A partir daí é uma noite de calvário, ou um "dia de merda" como ele a certa altura diz quando tenta fumar um cigarro na sua cela/quarto de hospital. Se Borghi canaliza um pouco da personagem de Fassbender em Fome, existe um travo tragicómico da Morte do Senhor Lazaresco.

Tudo ganha maior dimensão quando percebemos que esta é uma história baseada num caso real ocorrido em 2009, quando Setefano Cucchi foi passando entre dezenas de pessoas - entre policiais, guardas prisionais, "assessores", enfermeiros, médicos e juízes - sem um verdadeiro apego por aquilo que se passou, onde não faltou até um advogado incompetente pago pelo estado que derradeiramente demonstra ainda mais a putrefação de um sistema sumário nas avaliações e conclusões.

Curiosamente, o realizador Alessio Cremonini vai encontrar na família do rapaz - pai, mãe, irmã - o espaço para a expansão do drama, primeiro apresentando-os como descrentes no filho (um ex-tóxicomano) mas aos poucos com o sistema de justiça italiano, que só na hora da sua morte (é um caso real, não é spoiler) os informou da necessidade de autorização para a autópsia.

Sem sensacionalismos ou uma condescendência para com o detido, Cremonini concretiza assim um filme tremendamente sentido numa família devastada pela rapidez dos acontecimentos, enquanto faz uma radiografia bastante negra e um sistema cego e verdadeiramente insensível aos dramas pessoais e humanos.


Jorge Pereira
 



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