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«Pedro e Inês» por Jorge Pereira

A história de Pedro e Inês inspirou Rosa Lobato Faria a escrever A Trança de Inês, livro que agora o cineasta António Ferreira (Embargo) adapta com alguma eficácia, mas que frequentemente cai na redundância, no depositar apenas na caracterização, guarda-roupa e décors a esperança de representar as diferentes épocas, e que sofre do drama de misturar cinema com elementos novelescos, com particular destaque no trabalho dos atores, que muitas vezes dizem que se amam mas não nos convencem inteiramente de tal pela falta de intensidade, quer dos diálogos, quer das suas perfomances.

Aqui somos conduzidos a vários tempos distintos do amor trágico e impossível de Pedro e Inês: na época medieval, na atualidade e num suposto futuro distópico. O ponto comum em todas as histórias é o amor malfadado e adúltero de Pedro e Inês, enfrentando o duo dilemas próprios de cada época, de uma sociedade que repete as mesmas atitudes castradoras e os julgamentos sumários e morais. A voz-off, que procura constantemente nos situar de forma poética com discursos sobre o amor e desamor, falha por diversas vezes o seu objetivo, representando antes um fardo, um peso ema histórias que poderiam ser mais cinemáticas e menos carregadas neste discurso que de certa maneira as "legenda".

Por outro lado, se a organização e o fio narrativo mostram capacidade de apresentar com genica a ideia que a história repete-se e não há nada que evite este destino trágico, é também verdade que o espectador prevê de antemão tudo o que vai ver, ficando agarrado a uma previsibilidade que também contribui para retirar força a todo o conceito. Nisto acaba por ser o segmento medieval o mais conseguido, com os últimos momentos a trazerem um verdadeiro golpe dramático e neurótico a personagens fustigadas pela injustiça dos seus tempos. Quando chegamos à atualidade, sente-se algum cansaço e superficialidade telenovelesca dos artifícios e do dispositivo de interpretação. Na distopia, a descrença é maior por arrasto e pelas limitações da produção.

Diogo Amaral, Joana de Verona e Vera Kolodzig entrelaçam-se nestas estórias com a mesma capacidade e intensidade que o texto e a realização lhes oferece, não sendo agentes capazes de avançar com as suas personagens para além daquilo que lhes é oferecido pelo texto.

Assim, é pena que Pedro e Inês fique aquém do esperado, pois em termos da gímnica narrativa é bem mais audaciosa e arrojada que o cinema nacional costuma ser..


Jorge Pereira



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