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«Un couteau dans le coeur» (Knife + Heart) por Hugo Gomes

Estamos convencidos! Graças à sua segunda longa-metragem, Yann Gonzalez revela-se num conhecedor dos códigos de uma cinema reconhecível dos 70’s, transformando essa salada de referências e influências num espelho aos métodos Argento / Bava (a estética sobre a solidez do conteúdo).

Sob tais signos é “facílimo” desprezar este Un Couteau dans le Coeur e soltar instintivamente o primeiro grito de “fogo de vista”, mas deixem-nos contemplar estas aplicadas lições de quem tenta guiar-se por uma carreira à base do fascínio e da subjugação do anteriormente feito, comportamento que se poderá revelar numa faca de dois gumes (por outras palavras, o seu maior atributo como a sua fraqueza). Se o visual torna-se num órgão essencial em toda esta paródia à industria da pornografia gay, esta também é o refletor da nossa paixão / compaixão pelo cinema, hoje citado e revivido através de poucos.

Ora bem, para termos em conta a receita prescrita, reunimos os já referidos toques dos dois mestres italianos (para além do “bom olho”, a sua apetição pelo elemento slasher), a proeza do ambiente algo onírico, fantasioso e faustoso (vale a pena referir que há aqui um certo "piscar de olhos" a Brian De Palma). Depois de mexidos junta-se as pitadinhas do humor negro “almodovoriano” e invoca-se o medo politicamente incorreto de William Friedkin e o seu “maldito” Cruising (filme a precisar urgentemente de revisionismo e solidariedade, por isso, voluntários procura-se). Batido e sacudido, esta mistela forma-se por entre a estilização dominante e o sarcasmo evidentemente insertado em medidas grosseiras.

Eis o resultado, Un Couteau dans le Coeur, um filme série B sobre o cinema como memória, endereçado como uma quimera defeituosa que deslumbra no seu desequilibrado ambiente. Porém, é nos defeitos que por vezes nos fazem amar os filmes, estes corajosos e ricos em uma alma transcendente, por vezes fúnebres, perante os presságios de extinção que veste ocasionalmente. Yann Gonzalez atenta-se nesses requisitos, no cinema faz de conta, alicerçado à nossa imaginação e sobretudo crença.

É uma experiencia algo queer (no termo cinematográfico, é óbvio), um exercício visual entendido por muitos como uma homenagem. Provavelmente somos nós a exagerar no caso, até porque é somente isso … um tributo. Mas deixem-nos amá-los, projetar as nossas fantasias cinéfilas realizadas. Um objeto sedutor!

Hugo Gomes



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