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«On Chesil Beach» (Na Praia de Chesil) por Raquel Soares

As pessoas que tu perdes, tem uma maneira de nos assombrarem para sempre. Entramos sem hesitar em labirintos vagarosos para as conquistar, mas chega um segundo para que os laços que nos ligam se corroam para sempre. Frequentemente a culpa está no Outro, como um terramoto onde todos os envolvidos são vítimas. Porém, isso não nos impede de procurar soluções para o leite derramado.

Vozes de quem não consegue encontrar casa no ecrã, rapidamente (assim que saiu o trailer) , levantaram esperançosamente a questão da assexualidade. A realidade sem nome nos anos 60 foi no entanto usada mais como um meio do que um fim, e as pistas subtis deixadas pela narrativa apontam para traumas mais profundos que fogem da identidade, deixando mais questões do que respostas, nunca abordando realmente a dita questão. Arrisco até afirmar que o filme não é sobre isso. Esta obra de Dominic Cooke pode ser um tributo a muita coisa: aos casamentos falhados, ao que não tentamos compreender, ao amor, mas, sobretudo, trata-se de uma reflexão sobre o que se escapa através das falhas. Sobre esses fantasmas que nunca conseguimos deixar ir.

Com laivos do estilo de Wes Anderson, a direção parece acompanhar o tom da narrativa. O que começa com um estilo particularmente ”saltitante” de uma história de amor que recorre a subtis piadas visuais que nos surpreendem a cada canto (destacando-se dos usais sóbrios filmes de época), vai ficando cada vez mais sério e contemplativo à medida que nos vamos aproximadamente da catarse final. A realização nunca deixa de ser ,no entanto, impecável. Como uma máquina bem oleada, os diálogos, música e fotografia alinham na perfeição. Cada batida é afinada ao máximo. Perdendo um pouco o ritmo no último quarto quase como se ganhando fôlego para a última cena.

Somos assim habilmente transportados para aquele areal de pedra e emocionalmente arrastados ao longo dos anos atirados para uma espiral cada vez mais nostálgica. Não só devido à beleza da pequena Inglaterra mas também devido ao cuidadoso trabalho com as personagem. Tudo significa desde o posicionamento da mão , a um olhar , a um pergunta.

Na Praia de Chesil é assim uma experiência que nos embala na sua beleza do início ao fim. Contando uma perspetiva diferente do que é amar alguém para além da carne e da presença. Podendo até ser um filme de verão que tem como pano de fundo a Praia, a verdade é que saímos de lá sentindo o inverno.

Raquel Soares



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