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«Incredibles 2» (Incredibles 2: Os Super-Heróis) por Hugo Gomes

Os fãs podem suspirar de alivio. As preces foram ouvidas. Temos por fim a sequela de The Incredibles, e diga-se por passagem … recomenda-se.

Tudo começou em 2004. A Pixar vivia os melhores momentos da sua jornada pela indústria da animação graças ao sucesso atingido por Finding Nemo (aliás o melhor êxito do estúdio na altura), mas o objetivo não era seguir os conselhos táticos de “equipa que vence não mexe”. O que fazer depois desse coming-of-age submarino? A resposta foi encontrada por Brad Bird que visualiza o crescente cinema de super-heróis que estaria a dar os seus importantes passos de rejuvenescimento e encontra nele um foco quotidiano e subversivamente sociológico: e se os super-humanos vivessem entre nós, e que fossem condenados às meras vidas humanas, escondendo as suas verdadeiras identidades em prol do mundano?

Obviamente que a questão não era de todo original, a aura destes heróis de collants deriva sobretudo da dicotomia identitária, o disfarce que cada vez mais se confundia com o seu próprio “eu”. The Incredibles surgiria, coincidentemente, no mesmo ano em que David Carradine discursa a natureza ocultada do super-herói nos momentos finais de Kill Bill, exemplificando um curioso caso, o do Super-Homem.

Esta criação da DC, possivelmente o mais célebre do arquétipo heroico, é um ser poderoso cujo disfarce não é nada mais, nada menos que o mero mundano. Segundo o “malévolo” Bill de Carradine: “Superman was born Superman. When Superman wakes up in the morning, he's Superman. His alter ego is Clark Kent. His outfit with the big red "S", that's the blanket he was wrapped in as a baby when the Kents found him. Those are his clothes. What Kent wears - the glasses, the business suit - that's the costume. That's the costume Superman wears to blend in with us. Clark Kent is how Superman views us. And what are the characteristics of Clark Kent. He's weak... he's unsure of himself... he's a coward. Clark Kent is Superman's critique on the whole human race.”

The Incredibles funcionou como um gracioso sucesso de crítica e público, contornando as preocupações iniciais de um filme que parecia confundir com as grelhas televisivas dirigidas ao público-alvo. Era mais que cinema de super-heróis, aliás os super-humanos eram só pretexto para uma pertinente crónica sobre a mortalidade e os valores afetivos. Os fãs, então gerados, solicitavam constantemente uma sequela, uma resposta ao jubilante cliffhanger, mas tais desejos foram recusados, por outras palavras, adiados e adiados até contabilizarmos 14 anos ( uma espera que fecundou continuações desnecessárias desde Carros a Dorys, com a exceção de um excecional Toy Story, mas isso são outros contos).

Este Incredibles 2, agora sem o “The” (mas novamente com Brad Bird), é uma animação sob um batido signo de família e união, porém, esses “trapos” são costurados com peças modernas que dialogam com os novos tempos. Há um lado de emancipação feminina visada pela inversão dos papéis de género. Ele torna-se “dono de casa desesperado”, ela vai de viagem de negócios. Essa troca de identidades sociais revesse como o polo criativo desta jornada Pixar, calculado com humor astuto e do coração bem disnesco que se reconhece a léguas.

Contudo, a viagem, por mais agradável que seja, um revisitar a estes heróis calorosos, é ditada por um triste sabor de revisão, de beco sem saída na originalidade hoje tida como raridade. Fala-se pelo meio de fantasmas da NSA, coloca-se a questão queixada por Alan Moore e a sua obra-prima Watchmen, porém, esses ingredientes servem como faíscas de ação e reação num produto que se constrói em terreno seguro.

Quando chegamos a um ponto em que, visualmente, a animação já não parece surpreender, deve-se tocar o botão de emergência da Pixar, há que procurar além da história, novas formas de contá-la.

Hugo Gomes



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