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«Terminal» por Raquel Soares

O filme noir apareceu pela primeira vez em 1946 quando o crítico francês Nino Frank deu origem à palavra para descrever um tipo de filmes policiais que apareceram após a primeira Depressão. Estes filmes normalmente caracterizavam-se pela existência de uma femme fatale, ou menina má e por enredos rodeados pela desconfiança, intriga e obsessão onde o assassínio era muitas vezes o desenlace final. Filmes com cheiro a pólvora e a batom vermelho.

Estes filmes, inspirados pelos livros policiais da altura e pelo expressionismo alemão (género exagerado onde era usado maquilhagem e técnicas fotográficas para distorcer a realidade), apenas foram categorizados como tal por historiadores e críticos de cinema à posteriori, uma vez que nunca houve um esforço consciente destes diretores em criarem este subgénero   Este é um género curioso por isso mesmo, nunca foi cunhado por um movimento conjunto.

Terminal é uma das poucas tentativas desta década de neo-noir. O movimento que tenta capturar a glória dos elementos do noir trazendo-os para a contemporaneidade. O neo-noir parece-me na sua essência um esforço paradoxal. Criar um novo subgénero a partir da ressuscitação de um subgénero que nunca pretendeu existir e que muitos ainda na comunidade do cinema afirmam que não chegou sequer mesmo a existir, tem o seu quê de forçado. E realmente forçado seria uma boa forma de resumir este Terminal: um filme sem tempo nem lugar, mais preocupado em invocar essa ideia de noir e de estilismo extremo do que em apresentar uma história coesa e cativante, tornando-se na epítome do “style over substance”.

O filme que apenas durou 27 noites a ser rodado é uma festim para os olhos. Claramente inspirado pelos planos marcantes de simetria vincada do seu género antecessor, Terminal nunca perde uma oportunidade de ser extremamente estético. Porém, este tem uma certa vantagem aos filmes dos anos 40, a possibilidade de usar a cor. O verde, preto e vermelho reinam e cada cor parece escorrer de significado. Desde do casaco vermelho que funciona como um presságio para a verdadeira natureza da protagonista, ao verde que vai envolvendo o cenário por quase todo o filme que nos remete para a natureza suja de todos os envolvidos.

No entanto, este filme falha na primeira coisa que faz um puro noir funcionar, uma história envolvente que te deixa a fazer perguntas até ao final para nos dar um desfecho grandemente satisfatório. Tal parece acontecer de forma inversa uma vez que durante a primeira hora é completamente confusa e invoca perguntas que o filme ou nunca responde ou responde de forma insatisfatória. Isto dá origem a um enredo labiríntico cheio de becos sem saída.

O filme também parece tirar influências do já falado expressionismo alemão. Um certo momento da história poderá ser mesmo considerado um aceno ao tipo de maquilhagem prostético usada nos filmes da altura. O interessante neste paralelo é que em Terminal a remoção dos prostéticos é feito em cena, não sendo apenas reservado para quando se ouve o “corta”. Por outro lado, também parece existir a dita distorção da realidade característica do género, mas não no bom sentido, uma vez que em certas cenas os diálogos são tão mecânicos e alucinados que parecem vir de outro lugar inteiramente, o que não faz sentido no contexto do filme.

Como é que Vaughn Stein conseguiu convencer Margot Robbie a juntar-se a esta trapalhada de filme um ano após ter sido nomeada ao óscar pela sua tocante performance em I, Tony é um completo mistério. Especialmente considerando que ela parece ter dificuldades em encarar o papel. A sua performance de uma femme fatale fica reduzida a uma pirosa versão que claramente retirou inspiração da sua antiga personagem Harley Quinn, o que é uma escolha interessante, uma vez que essa era uma super-vilã com o cérebro danificada por químicos.

Consegue-se claramente evidenciar o esforço da atriz em encarar o papel oposta à naturalidade das meninas do noir. Nalguns ramos do estudo do noir, especialmente vertentes ligada à teoria feminista, afirma que as femme fatale apenas admitiam o que queriam e não se deixavam intimidar pelos homens, e por isso, a sua antagonização dependia da visão machista. No entanto, este não parece poder ser aplicado a esta protagonista, uma vez que ela é indubitavelmente uma “má pessoa”, independentemente do género.

No entanto, o guião do filme é de uma ambiguidade extrema sobre quem é o vilão ou não. São todos vilões e talvez seja essa a ideia, mas Terminal deixa-te sem personagens para simpatizarem e escolhe deixando-te contra toda a gente. Todos as personagens são imensamente forçadas e apenas representações fantasmagóricas de clichés do género. A única que salva o filme minimamente é Simon Pegg, a sua representação de um professor que está a morrer para além de ser natural, chega a ser de certa forma tocante.

Apesar do esforço que o filme começa a ter no meio deste, de apresentar diálogos semi-cativantes e sequências com alguma estamina, Terminal torna-se previsível e cansado, não dando qualquer tipo de novidade ao género. O seu final parece buscar influências a outro género: o terror de terceira categoria, quase desconectado do resto do enredo, numa tentativa de materializar claustrofobia, mas que se assemelha a uma irritante dor de cabeça.

Assim, apesar de Terminal ganhar alguns pontos pelo impressionante trabalho na fotografia, a sua total incapacidade de contar uma história coerente torna-o num produto sem sal que não vale o tempo que se perde a vê-lo. Provando talvez que tentar fazer um “film noir” primeiro e um filme em segundo, não só não é uma boa ideia, como atribui um mau nome ao género que se apresenta hoje nesta realidade contemporânea.

Raquel Soares



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