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«Cabaret Maxime» por Hugo Gomes

Existe uma beleza triste na derrota”, Fernando Lopes numa das suas viradas a ator, neste caso, em uma presença num dos filmes de Bruno de Almeida [The Lovebirds], condensou toda uma obra a um singelo e sentido reparo. Foi nas recordações ao seu Belarmino que Lopes, envergado a personagem-tributo, falou-nos do boxe com uma “vivaça melancolia”, um fado essencial, mas destruidor da alma humana. Não é preciso ser pugilista para encarar o boxe como o mais romantizado dos desportos no cinema e Bruno de Almeida guardou para si tais signos para impor a sua investigação no projeto seguinte - Bobby Cassidy - um documentário por si vergado em melancolia e compaixão a Belarmino.

De boxe e pugilistas o seu novo filme nada tem, mas o desporto de “murraças” e “ganchos” é somente uma aura metaforizada neste Cabaret Maxime, o tango entre dois e o pesar do derrotado, não pelo ringue, mas pela vida, mais precisamente, as mudanças que o atingem. Porém, foi no exato filme que Fernando Lopes debitou tal citação, que Michael Imperioli, entre o quotidiano lisboeta, é encantado por uma das sereias da cidade, Ana Padrão. O encontro dos dois levará ao desfecho do filme-mosaico de 2007. O casal reencontra-se, ou diríamos antes, nós o reencontramos, agora envelhecidos e cansados. Ele, Imperioli, o gerente de um cabaret em vias de extinção mas que resiste arduamente às “modernizações” da noite hedonista. Ela, Padrão, é agora uma “velha” estrela de palco, Stella (“que significa estrela”), perdida e sem norte, por entre o passado glorioso e o futuro incerto.

O casal “brilhante” de The Lovebirds é transformado agora em dois seres autodestrutivos que deambulam por entre um Cais Sodré convertido a “não-lugar”. Atmosférico e sobretudo fascinado pelo seu próprio universo, Almeida assume-se como naufrago nestas andanças noturnas, por entre o veludo vermelho que compõe o pano do seu espetáculo e pelos novos freaks que se pavoneiam em iluminações-holofotes. São os circos dos novos tempos … correção … dos tempos passados. Se existe em Cabaret Maxime a apetência de recriar um biótopo que nos agarre enquanto espectadores, sem esquecer pelo meio as menções do cinema narrativa (storyteller como muitos gostam de “estrangeirar”), existe também uma melancolia derrotista que nos confronta, mais do que confortar (apesar de desejarmos que a nossa vida contenha as intervenções de John Ventimiglia). É deixar para trás os vestígios de épocas expiradas para prevalecer o modernismo ou o modismo de ocasião, temática que parece afrontar as divagações de Imperioli por entre a montra de bares e danceterias.

O grande senão destes convites irresistíveis por ambientes povoados de criaturas fora de horas é o fascínio em demasia de Bruno de Almeida na sua criação cénica - não continuando, sobretudo, essa experimentação sensorial sem cortes nem espaços para acolher a dita narrativa, completamente enfaixada em finais fáceis. Porque tal como acontece nos contos da noite, o fácil não é propriamente a palavra que nos acompanha nestas ruas da “amargura”.

Hugo Gomes



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