«The House that Jack Built» por Hugo Gomes - C7nema
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«The House that Jack Built» por Hugo Gomes

Este Mundo precisa da existência de um Lars Von Trier e antes que comece o apedrejamento, solicito a liberdade de argumentar.

Precisamos de um autor. Sim, leram bem, autor, como o dinamarquês nesta indústria que muitos, como ele próprio, gostam de chamar arte (convém também dizer que o Cinema em si está acima da indústria e do veio artístico, mas isto não é desculpa para adorar ou odiar Von Trier e as demandas de ego). Alguém que assume a sua loucura para filmar, alguém que desafia a homogeneidade quase provocada pelos movimentos samaritanos e do politicamente corretos. Este Mundo necessita de provocadores, conforme seja o “lado do vento”, precisa de “irritações” como diria o dramaturgo brasileiro Dias Gomes: “Toda a gente nasce para irritar alguém, e se não estás a irritar ninguém e porque não estás a fazer nada”. O pior é somente levá-lo a sério.

O choque inicial tido neste The House that Jack Built é sinónimo dessa procura pela provocação, porém, ao contrário de um Gaspar Noé, por exemplo, Von Trier não pretende causar uma experiência sensorial. Por mais gore que sejam as imagens transmitidas (um macabro que não poupa ninguém), a grande provocação encontra-se nas suas palavras, nos relatos ideológicos que nos enviam diretamente para uma espécie de inferno. Custa-nos de certa maneira engolir todas aquelas teses, custa-nos a acreditar que estas são apenas fabricações da ficção, custa-nos pensar que tudo isto não passa de um disfarce. É preocupante um filme como The House that Jack Built, o conto de serial killer narrado na primeira pessoa, olhado na primeira pessoa e pensado na primeira pessoa, não partilhe a mesma crença que o seu criador (há aqui qualquer de perturbador como em Henry: Portrait of a Serial Killer). Esta linha umbilical entre criação e criador cria desconforto, acima das tentações consumadas pela personagem de Matt Dillon, arquiteto que descobre o prazer na “matança”, o artista frustrado que assume a carnificina como ópio toxicológico.

Lars Von Trier resolve replicar o dispositivo narrativo dos anteriores Ninfomaníaca, dividindo a intriga episodicamente (neste caso por ‘Incidentes’) e presenteando com uma voz-off que oscila entre a narração da ação com a leitura da situação. Mas a semelhança termina aqui, Lars Von Trier possui uma espécie de firewall nesta visão de psicopata, enquanto nos indignamos com a voz de Matt Dillon a especificar, comparar e a reduzir todos os seus grotescos atos em ‘Arte’ (Art is Everything ali, Art is Divine acolá), existe a presença de uma segunda narração, uma voz que debate-se com a do nosso psicopata, uma consciência que não se assume imperativa e pedagogicamente totalitarista. Esta voz, pertencente a Bruno Ganz, questiona todas as afirmações solidamente acreditadas pelo maldito protagonista, e as suas questões importunam, intervindo como moderador do tom sádico-demente que poderia expandir para territórios obscuros.

Obviamente que toda esta linguagem, discursos de caçador em vanglória dos seus troféus, acompanhado com um visual trabalho no contexto-choque, o gore, o esperado macabro trazido para envergonhar Anticristo, chega para desmontar os sacrilégios códigos do terror. Entre essas imagens que nos fazem temer, Lars Von Trier comete o “atentado”, ou diria antes os “atentados”, da morte, tortura e deturpação de crianças, esses símbolos da inocência que se demarcam como as saídas da sensatez para muitas obras do género. E estando a “apedrejar” esses mesmos símbolos, a destruí-los por completo, The House that Jack Built abre uma porta para uma patologia sanguinária sem limites.

Essa “ilimitação” leva-nos a uma revelação: a ida do inalcançável, do objeto de tentação, a catedral invertida onde todos os pecados da Humanidade são depositados, gritando em uníssono. É aí que o filme assume com clareza a sua demência. Assume a arte como uma escapatória para os seus medos e acima de tudo as suas ofensas. Revela-se conhecedor de Goethe e de Dante Alighieri, cruza ambos os universos para nos transmitir uma resolução-raiz quadrada dos percursos faustianos, para no final ceder à mais mortífera de todas as piadas (sim, porque a vida tem o seu ar de comediante). Alias, não será o filme um experimento de comédia negra? Nesse caso, Lars Von Trier poderá ser o nosso comediante nesta distorcida Comédia Divina.

Hugo Gomes   



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