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«As Boas Maneiras» por Hugo Gomes

Curiosamente, As Boas Maneiras entra em concordância com um outro filme estreado entre nós no mesmo ano, Shape of Water (A Forma da Água), não pelos prémios recebidos (um foi o Óscar, o outro o Prémio de Júri de Locarno), mas pela intenção social explicita através do dispositivo-fábula. A criação de um imaginário fantástico ao serviço do mundo inserido e reconhecido do espectador, por palavras mais comodas, uma profunda metáfora do real.

Esta comparação não fica por aí, ambos lidam com os seus monstros, literalmente falando, seres inadaptados de uma sociedade antagónica e hostil. Efeito que reflete no contraste entre as “monstruosidades” cometidas pelas criaturas (os gatos são nos dois casos, as vitimas desses instintos primários) para com a agressividade do meio que os envolve. Contudo, as comparações poderiam parar por aqui, mas o referido efeito-fabulação encontra-se presente com tamanha força, e nela expele o ridículo que o tutti-frutti de tons emanado poderia apresentar.

Enquanto num é a América discriminatória sob um diferente prisma, o outro é uma São Paulo emaranhada num registo fantástico (a fotografia de Rui Poças realça como condutor dessa virtude de fantasia),  o conto de fadas a tomar conta da grande cidade do Brasil. Porém, reconhecemos-o como o país distorcido e sobretudo verdadeiro para com essa mesma distorção. Trata-se da utopia entre o mundo realizado e o fabulizado e o monstro, o menino-lobo digno de um folclore universal, fruto proibido de conceção herética, é a representação de uma sociedade que ousa em separar as divergências com tamanho pudor. Um Brasil onde cada um guarda o seu segredo, em compartimentos ocultos, em correntes quotidianas e em peregrinações noturnas, e esses mesmos segredos são passados como compromissos assumidos, um jeito anti-natura assim como as ditas “boas maneiras” são para com a natureza humana (a via de transformar os nossos comportamentos).

Marco Dutra e Juliana Rojas, a dupla que por si representa uma pequena fatia daquilo que poderemos apelidar de nova vaga do cinema de género brasileiro, compõem aqui, em sua espécie, uma sátira ao modelo Disney acomodada pelos valores do legado da Universal Pictures (os tumultos da população remete-nos ao imaginário transposto por essa Hollywood povoada por monstros clássicos).

Os realizadores entendem sobretudo as nuances envergadas pelo trabalhado cinema de género, as respostas para estes fins instalados nas suas influências e não encarando a um género definido e isolado nas suas idiossincrasias.

Mas todo este registo tende em apresentar os seus cansaços, até porque As Boas Maneiras instala-se como uma perfeita referência a esse mesmo mundo e, assim, prevalece diversificado (ou “bom” esquizofrénico) até ao seu final. Porém, existe um veio que parece quebrar a narrativa da mesma forma que replica os atos temporais, um “evangelho bíblico” aludido , marcado pelo nascimento de um “messias” (novamente incompreendido). Nesse registo, notam-se dois filmes independentes congregados através de um momento musical. Infelizmente, dois filmes díspares em cumplicidade com enredos de bestas e bestialidades, de monstros e “boa educação”. Contudo, não serão mesmo estes elementos como o Brasil é hoje visto, dentro e fora?

Hugo Gomes



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