«Le Fidèle» (Fidelidade sem Limites) por Hugo Gomes - C7nema
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«Le Fidèle» (Fidelidade sem Limites) por Hugo Gomes

Eis um romance shakespeariano que nasce no biótopo do crime organizado belga. É em todo o caso uma proposta inicialmente vibrante, essa que promete Le Fidèle, a nova reunião entre o realizador Michaël R. Roskam com o ator Matthias Schoenaerts que tem nos últimos anos conquistado quer o cinema europeu, quer os cobiçados lados de Hollywood (veja-se o caso do recente Red Sparrow). A dupla que consagrou o curioso Bullhead há sete anos atrás, espelha um filme pretensioso e demasiado ostentativo nas suas próprias ambições.

Nesse sentido, é inegável o carisma do ator em compor personagens marginais e de certa forma incompreensíveis, assim como o fez em Rust and Bones de Jacques Audiard, assim o faz nesta dita “salada de frutas” que passa pela coletânea de géneros e pitadinhas românticas aqui e acolá.

Infelizmente, apesar dessa competência de narrativa, da forte afeição com o duo principal (Adèle Exarchopoulos no mais importante projeto desde A Vida de Adèle) e do tecnicismo por vezes aproveitado (o plano-sequência que capta a adrenalina num pleno golpe a uma carrinha-forte vale a espreitadela), tudo é chover no molhado. Tecendo por essas mesmas linguagens cinematográficas, tais temáticas perdem dimensão. Uma narrativa contada sob dois protagonismos e um terceiro ato que vem a resolver a tragédia, o fatalismo que se adivinha a léguas, como mandam as bases aristotélicas, encaminham um filme pelo conceito de “déjà vu” e na esquematização desses mesmos feitos.

Assim, perdemos o tempero à coisa, desligamos de um filme demasiado disperso em relação à sua duração, e demasiado moralista tendo em conta a sua vestida capa de ambiguidade. E quem sofre com isto não são somente as personagens, é sim a tragédia que cede o seu território emocional pelas velhas profecias. Este é um daqueles casos em que a previsibilidade, esse modo-automático de historiar, acaba por ser o tiro certeiro no ego de um filme. Nada de marcante aqui.

Hugo Gomes



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