«La Loi de la Jungle» (A Lei da Selva) por Hugo Gomes - C7nema
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«La Loi de la Jungle» (A Lei da Selva) por Hugo Gomes

Insinuar que Antonin Peretjatko é um novo Godard é, automaticamente, uma pretensão imprudente e sem noção de verosimilhança com a própria evolução do cinema enquanto linguagem estilística. Contudo, podemos afirmar que encontramos neste realizador um aluno imparcial das aulas do veterano “homem-museu”, uma espécie de ditado à essência imposta por uma das obras mais famosas da nouvelle vaguePierrot Le Fou (Pedro, O Louco). Essa vontade de congelar um estado fílmico, a desconstrução como palavra de ordem, a rutura com o texto e com as costuras narrativas.

O filme de 1965 é um tratado de poesia, não no sentido de sonoridade dos diálogos e das prefixações com as “belezas” guiadas do existencialismo, mas pela disposição narrativa, sem conexões evidentes, envolvidas num meio anárquico para com todo o sistema. Peretjatko é por sua vez o oposto desse anarquismo, até porque o realizador que já demonstrara a sua capacidade de menção na sua primeira longa-metragem La Fille du 14 Juillet (A Rapariga de 14 de Julho, 2013) replica os “tiques” identificáveis de Pierrot Le Fou. Desde a entropia fílmica, a referência como estandarte, o argumento incendiado pelo desconhecido e da viagem como pretexto e por fim, o ativismo político-social que se esconde em cada gag non sense até às experimentações de edição (os falsos-raccords, a descontinuidade entre cenas, a música que surge como um elemento de construção).

Sim, há aqui toda uma vénia, uma intenção, mais que uma homenagem, uma declaração amorosa de um cinéfilo para outro. Curiosidade, o livro, como objeto presente, encontra igual valor entre as duas obras (no caso de La Loi de la Jungle, o Livro de Código de Licenças é o novo omnisciente). A jornada do herói, a violência caricatural, o sexo como armadilha narrativa, traços de Pierrot’ que servem de disfarce para um contexto politico no filme de Peretjatko. Tal como La Fille du 14 Juillet, a França é posta a nu, distorcida a uma extensa sátira e, em consequência, como peças dominós se tratassem, a Europa e a sua “União” como trafulhice capitalista.

A Velha Europa, A Velha Europa” cantarola com saudade um dos bonecos desta selva metaforizada num país embuste. A selva, essa, onde dois destinos nos reservam, morte ou esquecimento, escreve desesperadamente o nosso protagonista, Vincent Macaigne, esse “furacão” que se tem tornado num cúmplice à citação de Peretjatko (da mesma forma que Godard solicitou Belmondo). E como aliada, Vimala Pons, novamente a afirmar-se como uma futura musa da comédia francesa (se isso não é reduzir a mínimos rótulos).

Hugo Gomes



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