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«Suburbicon» por Jorge Pereira

A carreira de George Clooney como realizador prometia bastante quando este lançou nas salas Boa Noite, e Boa Sorte (2005), uma curiosa e razoavelmente bem conseguida obra sobre o macarthismo, um dos períodos mais negros da história recente dos EUA.

Depois disso, Nos Idos de Março ainda mostrou alguma força de Clooney como diretor (e também as suas ambições políticas), mas desde aí a sua carreira atrás das câmaras parece ter entrado em contramão, primeiro com The Monuments Men - Os Caçadores de Tesouros, um verdadeiro fracasso, e agora com este Suburbicon, uma produção onde o ator que deu nas vistas por Serviço de Urgência e se consagrou a trabalhar com nomes como Steven Soderberg, Alexander Payne e, claro, os Coen, nunca encontra o tom e o ritmo certo para contar uma história que exigia drama, sátira, um humor negro refinado e mistério.

Pegando num argumento escrito pelos Coen no início da carreira (e isso sente-se em todo o texto), Clooney não tem o foco, a incisão, ou acidez do duo para manietar tudo o que o guião oferece, ficando pelos meios termos e caminhos óbvios, caindo ainda de forma trágica num modo primário de mostrar os EUA como uma nação hipócrita e racista que se alicerça num sonho americano que promove a ambição sem freios, e fazendo de  isto tudo uma alegoria notória à era Trump [leiam o que ele disse em Veneza sobre o filme].

Quem são afinal os verdadeiros animais neste idílico subúrbio norte-americano? O casal de negros que se muda para o local e que é fustigado pela raiva cega dos vizinhos, ou, numa história paralela, a família branca que vive do outro lado da rua, aparentemente à mercê de agiotas mafiosos, mas com segredos por revelar?

Clooney, na verdade, para além das metáforas banais e da sua agenda política flagrante parece não ter nada de autor para mostrar ou dizer atrás das câmaras, sendo ainda gritante a forma como as personagens aqui são tratadas, como o casal de negros, apresentado como meros peões unidimensionais que o realizador usa  para mostrar «a sua culpa branca»

Quanto aos que estão do outro lado da estrada, Matt Damon e Julianne Moore (aqui a dobrar), cumprem os seus desígnios, mas até os seus papéis parecem demasiado pobres e derivativos de outros que os Coen já retrataram no grande ecrã, como em Fargo, acentuando assim a completa e total desinspiração de um projeto que nas mãos de quem o escreveu originalmente certamente seria transformado em ouro.


Jorge Pereira



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