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«La Liberdad del Diablo» (A Liberdade do Diabo) por Hugo Gomes

A violência adquire um só rosto, uma face sem particularidades e características que se confunde na cara dos outros, assim como na nossa. Essa mesma máscara é adaptável a qualquer uma, basta as palavras proferidas serem mais leves que as memórias que essa mesma guarda.

Do México, esse cenário de violência provinda de uma guerra narcótica e tribal, a corrupção do sistema e a negligencia quer dos silenciosos, quer dos silenciados, é matéria finita no cinema. O documentarista Everardo Gonzalez somente abandona a ficção e as suas armadinhas e abraça a primeira pessoa do panorama. La Liberdade del Diabo é um registo de histórias que nunca chegam a espelhar a total patologia social mexicana, mas são inacreditáveis as palavras de dor, rancor ou somente os testemunhos dessa mesma realidade que se ouvem através de um sistema de Fregoli.

Pois, que se lixe a ficção a servir de “sala de pânico”, este “cinema verité” contido em talking heads encontra refúgio no anonimato de uma máscara comum. Esta experiência adquire a sua farsa, um tipo de farsa que Joshua Oppenheimer executara no seu díptico The Act of Killing / The Look of Silence, uma encenação utilitária para a invocação de uma verdade de difícil extração.

Em La Liberdade del Diabo, a farsa é simbolizada pelo disfarce facial, o lado ficcional dessa coletiva de memórias infelizes. O sofrimento e a crueldade estão de mãos dadas para a conceção de uma narrativa, neste documentário que conduz-se com emergência e choque para todos aqueles que encontram a segurança no conforto do lar (ou da sala de cinema).

Existe em Gonzalez um certo ar de perverso voyeurista, mas essa curiosidade que “por vezes mata o gato” indicia um ativismo. Se é eficaz ou não para com o espectador, isso advém da sua perspetiva e sensibilidade. Contudo, quem nos dera que o tão “conceituado” Wang Bing fosse assim. Tão urgente e menos ocidentalizado. Enfim... 

Hugo Gomes



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