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«Victoria» por Paulo Portugal

Num dos seus intervalos na carreira de ator, o alemão Sebastian Schipper acrescentou mais um título à sua filmografia atrás da câmara. Victoria teve a sua premiere no festival de Berlim de 2015 onde obteve o prémio de melhor contribuição artística, para o diretor de fotografia norueguês Sturla Brandth Grovlen, por cumprir uma sinuosa história pelas ruas de Berlim, com aparticularidade de ser captada num único plano de duas horas e dezoito minutos. Temos então um filme inflamado por um ritmo infernal que invariavelmente nos faz recordar “Corre, Lola Corre”, de Tom Tykwer, de 1998. Curiosamente, ou talvez não, uma fita em que Schipper participou como ator. 

O ritmo é imprimido de imediato na primeira cena, em que a espanhola Victoria (a bela catalã Laia Costa, numa inevitável versão de Franka Potente, de Lola), desce às catacumbas dos ritmos tecno de um clube noturno em Berlim, para evoluir madrugada dentro e ao longo do dia com as investidas do impetuoso Sonne (Frederick Lau) e o seu pequeno gang amigos, Boxer (Franz Rogowski), Blinker (Burak Yigit) e Fuss (Max Mauff).

Sem darmos muito pela passagem do tempo, a narrativa oferece-nos uma dose suficiente de peripécias e ação quanto baste para nos manter entretidos. Ainda que seja difícil ignorar a mirabolante eficácia de uma câmara com intenção não interromper o curso. É claro que existe pelo meio um McGuffin hitchcokiano de um saco de dinheiro que serva apenas para justificar a correria de uns e a perseguição de outros. É sempre assim.

Mesmo sem pretender ser original, o V de Victoria consiste sobretudo na forma hábil como o filme mantém de pé uma certa unidade. Ainda que, por vezes, o faça já onde o entretenimento se cruza com o enfado. É que tal narrativa não perde lógica se perder ritmo. 

É de louvar a coordenação quase perfeita entre Schipper e Sturla para erguer uma coreografia credível, e mais ou menos precisa, de modo a estender toda a ação no tempo e no espaço. Controla-se assim grande parte dos momentos em que é o desenrolar da trama que monta a linha elíptica do tempo na sequência. Seguramente, um notável trabalho de eficácia, mesmo quando nos atira para um final algo desproporcionado, ainda que aceitável dada a premissa inicial.

O problema de Victoria é que se torna difícil de o classificar fora de um registo de exercício cinematográfico. Ou seja, pesa sempre mais o lado de curiosidade do que propriamente do grande filme. 

 

O melhor: O trabalho coerente de realização e de câmara

O pior: A dificuldade em deixar de sentir que se trata de um filme-exercício

Paulo Portugal



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