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«Ce Sentiment de l’Eté» por João Miranda

A morte de alguém querido é sempre uma experiência traumática cujas ondas ecoam ao longo dos anos. Quando Sasha, com apenas 30 anos, morre subitamente no verão, este vai adquirir para o namorado e para a família contornos nostálgicos. Em “Ce Sentiment de l’Eté”, Mikhaël Hers mostra-nos em alguns verões como essa perda é sentida e como, apesar de tudo e sem detrimento para com o sentimento que tínhamos para com a pessoa, se vai alterando.

Este é o terceiro filme do realizador no Indielisboa, depois de “Primrose Hill” em 2008 e de “Memory Lane” em 2011, e consegue ver-se também neste filme o que parece ser a sua assinatura: a forma como procura filmar a nostalgia sem ser melodramático e o ritmo calmo com que a narrativa se desenrola. Num horizonte cultural em que os filmes se caracterizam pelo ritmo acelerado (com explosões e violência à mistura) ou pelo dramatismo em que caem (muitos vezes de forma histriónica), um filme assim, que nos mostra mais do que nos conta e que recusa o sentimentalismo ou frisson baratos, é sempre bem-vindo.

Outro ponto forte do filme é a forma como trata as amizades sem as tornar em interesses românticos. Parece um ponto estúpido de apontar, mas podem contar-se pelos dedos as amizades intersexuais que, eventualmente, não resultem em sucessos ou fracassos amorosos. Poder ver pessoas a relacionarem-se umas com as outras sem sentir o peso da relação amorosa iminente é refrescante. Ainda que não consiga fugir à heteronormatividade, o não procurar definir a sexualidade de todas as pessoas torna-o mais flexível do que muitos outros.

Se há algo de que se possa acusar este filme é do seu privilégio: todas as pessoas que vemos fazem parte de um cosmopolitanismo internacional, não parecendo sofrer com dificuldades financeiras de maior. Um vê a sua carreira de escritor a ser apropriada pela de tradutor e outra vê-se obrigada a trabalhar num hotel à noite, mas isso não os impede de viajar e viver noutros países sem dificuldades óbvias. Mas isso não reduz o filme, permitindo-lhe focar-se nas emoções que pretende retratar.

 

O Melhor: A nostalgia; o ritmo.

O Pior: Anders Danielsen Lie.

João Miranda



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