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«Jogo de Damas» por Hugo Gomes

Jogo de Damas é uma das provas vivas de que o cinema português cresceu do teatro e que dificilmente se consegue divorciar dessa arte performativa. O filme de Patrícia Sequeira apresenta-nos quatro mulheres, amigas de longa data, cujas afinidades encontram-se ameaçadas ou apagadas por segredos entre elas, mantidos em cumplicidade ao longo do tempo.

Elas voltam a reunir-se no funeral de um quinto elemento dessa irmandade, fisicamente ausente, mas presente em espírito, até nas paredes da sua antiga casa, algures no Alentejo. Casa essa que serve de palco desta trama que desafia e reacende relações.

Jogo de Damas contempla-se como um filme de atrizes, de mulheres que preenchem um cenário limitado, como qualquer ensaio de cerco, operando como peões de uma peça prestes a ser encenada.

Não se pode negar. Existem momentos de conforto neste melodrama no feminino, diálogos que têm tanto de criativo como de trivial, podendo afirmar-se o mesmo em relação aos desempenhos das suas atrizes. Estas, invocam a essência da performance que relembra Persona (A Máscara), de Ingmar Bergman, mas também aquilo que o público conhece das carreiras televisivas. 

Infelizmente, todo este grupo carece de sedução. Se o trabalho de ator parece ser amenizado pelas afinidades criadas durante a rodagem, compreende-se que estas atrizes tinham mais para dar nos seus registos e que a câmara de Patrícia Sequeira pedia mais do que simplesmente preguiça: exigia liberdade. Tal como as interpretações, pouco se viu dela aqui.

Apesar de todo este "e se", que poderia tornar Jogo de Damas em algo verdadeiramente memorável, esta fita é na sua essência um trabalho que oferece aquilo que foi exigido. Nada mais, nada menos.

"Dizes-me até amanhã
Que tem de ser que te vais
Porque amanhã sabes bem
É sempre longe demais
Acendo mais um cigarro
Invento mil ideais
Só que amanhã sei-o bem
É sempre longe demais"
Rádio Macau


Hugo Gomes



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