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«The Lobster» (A Lagosta) por Hugo Gomes

Não há mal nenhum em estranhar, até porque essa parece ser a atitude certa para uma obra como este The Lobster (A Lagosta), a nova criação do cineasta grego Yorgos Lanthimos, que se dispõe como uma fria sátira do quão burocráticos se tornaram os compromissos afetivos e a relevância impar que o estatuto social adquiriu na nossa sociedade.

Obviamente, em toda essa crítica, na forma de uma prolongada metáfora distópica, o bizarro faz definitivamente parte da experiência, sendo incutido um surrealismo e um non sense nos desempenhos, todos eles aludindo a um alvo social, ou, neste caso, a um conjunto deles.

A mente por trás do bizarro Canino, essa hipérbole da distorção social perpetrada pelos sistemas totalitaristas, tem ao seu dispor um elenco internacional que conta com as presenças de Colin Farrell, Rachel Weisz, Lea Seydoux e até Ben Whishaw. Apesar disso, Lanthimos não arredou o pé quanto à sua excentricidade e revelou-se um arquiteto niilista, onde um mundo não identificável é a sua maior obra de arte.

Neste mundo ser solteiro é um crime, uma marginalidade onde os recém-solteiros apenas possuem um de dois objetivos da vida: ou arranjam um par, ou transformam-se num animal. Um pouco com Huxley e o seu Admirável Mundo Novo, aqui encontramos uma sociedade que coloca o sexo como o tópico mais natural e trivial de sempre, e nele reside a grande combustão para o quotidiano de qualquer um.

Dividido em dois atos evidentes, The Lobster tenta colidir com os dois lados da mesma moeda. Em consequência disso, é dada uma profundidade, apesar de não parecer, a essa mesma distopia.

Lanthimos contraiu uma linguagem influenciada pelo cinema inibido norte-americano, como o de Wes Anderson, tão presente nos desempenhos e personagens caricatas, assim como os diálogos que estão algures entre o delicioso e o surreal. Sim, eis uma viagem pelo sobrenatural das distopias, uma complexa crítica à essência sexual humana que, como animal monógamico ou simplesmente solitário, define a sua estrutura social e matrimonial. Já os animais, mais que um dispositivo narrativo, comportam-se aqui como signos, como a própria lagosta, que possui um papel fundamental e simbólico.

Nisto, muitas ideias poderão ser retiradas daqui, visto que Lanthimos dá espaço para ambiguidades e paradoxos. Porém, gosto de pensar como Orson Welles: "Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos".

Tal citação enquadra-se na perfeição na sequência final, sugestivamente dolorosa mas que sublinha com acidez o seu ponto de vista.


Hugo Gomes



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