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Mal Nosso: uma apoteose de técnica e inteligência no reino do macabro

Ilusionistas e prestidigitadores que encontraram no Primeiro Cinema um espaço de invenção, de 1896 até 1910, flertaram com o terror, numerosas vezes, em busca de brincar com o jogo de sombras e luz ou em busca do que existe de assustador no desconhecido: ambos os trilhos convergem em Le Diable Geant (1901) de George Méliès. Ali, o ilusionista que pavimentou o caminho para a ficção escapista – e para o surrealismo – cria um Diabo saltimbanco com todas as características caricatas dos folclores religiosos cristãos: seu exu tem chifres longos, cara de ruindade explícita e pés animalizados. É uma caricatura. Uma piada explícita da representação da maldade no coração dos homens. Mas, ainda caricato, ele tem uma potência inquestionável (que o tempo não apagou) como metáfora para o que há de ruim... e como metonímia daquele nosso guilty pleasure mais perverso. Estamos a falar de um filme seminal do início do século XX. E não é que, um século e 18 anos depois, essa mesma estrutura semiótica, esse simbolismo diabólico, reaproveitado, demonstra ainda funcionar... e assustar... na criatura que dá carne e cornos ao metafísico Mal nosso, de Samuel Galli.

É um filme de exorcismo e vingança, sobre um homem que fala com os mortos em diálogo com um assassino de aluguer. Estreia nesta quinta-feira no Brasil. Estreia com o prestígio de ter sido elogiado em alguns dos mais importantes festivais de fantasia e horror do planisfério cinéfilo (Stiges, Rojo Sangre, Insólito, Night Visions). Estreia merecendo o título de melhor filme nacional a chegar ao nosso circuito no primeiro trimestre de 2019. A direção de Galli é de uma precisão milimétrica. Algo que evoca o Kurosawa de Yojimbo no jogo que se estabelece entre olhares e objetos, como num balé que mantém o clima de tensão na altura máxima. E estamos diante de uma produção de orçamento pigmeu, quando comparado com a média dos filmes de género.

Estreante nas longas metragens, Galli escreve e dirige com um domínio cirúrgico do tempo do assombro a imolação de Arthur (Ademir Esteves), um pai devotado à sua filha de 19 anos que recorre aos serviços de um matador por razões pouco explicadas. Chama atenção a coragem dele no trato com Charles (Ricardo Casella), o tal profissional do assassínio, que esbanja misoginia na sua relação com o sexo feminino.

No início de Mal nosso, causa estranheza a violência explícita de Charles na relação com duas acompanhantes que contrata por 300 reais (69,6 euros). Tortura é a prática sádica de prazer que o leva ao gozo. Nesse início, é difícil saber a quem Galli vai confiar o protagonismo: a Charles ou a Arthur, que, de cara, parece um vilão. Mas, desde crianças, somos educados a acreditar na máxima "aparências enganam". Máxima essa que o cinema tenta distorcer profissionalmente, na ficção e mesmo num quase-documentário ("Cartas da Sibéria", por exemplo). Máxima essa que incomodou mestres do terror como Brian De Palma, John Carpenter e M. Night Shyamalan, os três especialistas em debelar certezas que a visão cristaliza. Galli vai por aí.

Sabe-se, a dado momento, que Arthur cresceu com uma maldição (ou seria sua bênção?), a habilidade de falar com os mortos... para ajuda-lo. A porção de Shyamalan se faz notar aí e no requinte dos enquadramentos potencializados pela fotografia de Victor Molin. O grafismo gore das mortes iniciais dá lugar a um horror da palavra e da claustrofobia, um horror de câmara que nos espreme em paranoia, tipo De Palma faz em Obsession (1976). Arthur fala com Charles por um caminho inusitado (sem spoilers, pf), olho no olho do ecrã, narrando o que aprendeu na sua educação fantasmagórica, amparado por um palhaço espectral (Anthony Mello). É uma educação que evoca o calvário de Sam Neill no carpenteriano In the Mouth of Madness (1994), numa mediação que se dá com a lógica folclórica do "aqui se faz, aqui se paga", numa brasilidade latente, numa universalidade potencial.

Num guião de ourives, Mal Nosso desnuda-se da moral, circundando uma ideia de bondade platónica. Já sua ideia de Maldade é bem pragmática. Ela espirra sangue e evoca um Diabo de visual caricato como o de Méliès. Mas o conto cinematográfico do francês era uma comédia. O haical satânico do brasileiro, com CEP de Ribeirão Preto, é terror com T. E poético com P. Uma poesia sombria, mas essencial nessa busca da língua portuguesa de expressar a partir de filões no cinema. Eis o primeiro grande filme brasileiro de 2019.



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