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Choque, dor, mas também cansaço. Um olhar sobre «Leaving Neverland»

Leaving Neverland é exibido a partir de amanhã, dia 8 de março, na HBO Portugal.

Revelam-se excessivas as quatro horas deste Leaving Neverland, documentário tão polémico como urgente e sensível que apresenta testemunhos que nos levam a dois novos casos de alegados abusos sexuais por parte do famoso cantor Michael Jackson.

Recorrendo a imagens de arquivo, entrevistas e intermináveis panorâmicas aéreas (redundantes) dos locais que vamos falando e passando (Los Angeles, o Rancho de Neverland, etc), este documentário assinado por Dan Reed mostra ser um excelente trabalho de investigação jornalística com uma razoável organização do material recolhido, mas um objeto ainda assim incompleto e assimétrico na sua qualidade enquanto objecto fílmico.

Estamos perante um novo escrutínio ao falecido músico, um julgamento no tribunal da opinião pública em que apenas ouvimos os acusadores, Wade Robson e James Safechuck, crianças que conviveram com Michael Jackson; ambos com a conivência familiar, ambos com problemas familiares nas relações entre os pais.

São estes, na figura das mães, que explicam como tudo se passou, não os abusos, que nunca testemunharam, mas o processo em que as suas vidas se cruzaram com Michael Jackson. Há contribuíções sobre situações e eventos específicos em diversos locais que encaixam com os testemunhos dos filhos, e o sentimento de horror quando, anos mais tarde, quando os jovens já eram adultos, lhes contaram o que realmente aconteceu, não apenas no excêntrico rancho de Neverland, mas pelo mundo fora (Paris, Milão, etc).

É um documentário extremamente "gráfico" nas descrições feitas pelos homens, agora adultos, que alegam ter sido abusados continuamente durante longos períodos. Depois desses abusos, a amizade entre os jovens e Michael esfriava, e este encontrava "um novo amigo", também ele criança, relegando-os para segundo plano. Isto até começarem a surgir acusações de pedófilia por parte de outros rapazes, que voltaram a requerer a atenção do cantor por estes "amigos", os quais chegaram a ser testemunhas abonatórias do cantor.

Grande parte desses relatos provocam consternação, com descrições de masturbação, sexo oral e tentativas de sodomia. Há por aqui igualmente admissões de que não se tratam de memórias reprimidas ou escondidas por um trauma, mas a perfeita consciência de que sempre souberam e viveram com tudo o que aconteceu por um misto de amor, desejo de proximidade e medo do cantor. É sinceramente triste e frequentemente assustador este olhar para o passado, não só pelo culto e histerismo cego que existia e existe em torno da figura de Michael Jackson, mas igualmente na observação de como algumas decisões das próprias famílias contribuíram indiretamente para situações que nunca previram virem a ocorrer.

Pelo meio, são também revelados segredos sobre espaços secretos no rancho de Neverland e visitamos casos passados em que o cantor foi acusado de pedófilia, mas viria a conseguir acordos fora dos tribunais, ou seria mesmo ilibado pelas autoridades. Reed não se limita a colocar os jovens, agora adultos, em cena a debitarem as suas suas histórias, mas entre os testemunhos visita as suas e vidas faz correlações entre testemunhos e factos. Fala-se também da história pessoal das suas famílias, e não se esquecem os primeiros trabalhos no mundo do espetáculo, alguns deles patrocinados pela influência do cantor.

São ainda mencionados outros casos, como o de Macaulay Culkin, como potenciais vítimas do cantor, mas estes não surgem fisicamente no documentário, e as suas palavras - que negam qualquer forma de abuso - são resumidas a duas linhas num separador a preto no final da primeira parte.

Por tal, e embora este seja um objeto limitado, a sua "narrativa", aquilo que conta, revela-se essencial como uma extensa peça jornalística transformada num documentário televisivo com defeitos e virtudes na sua construção, mas que nos obriga a repensar tudo o que sabiamos sobre o tema.

 

Estreia marcante e chocante em Sundance

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A presença policial no Festival de Cinema de Sundance chegou a ser aumentada devido ao receio de protestos por parte de fãs de Michael Jackson contra a estreia de Leaving Neverland, mas durante a exibição deste trabalho com 4 horas, dividido em duas partes, acabaram por ser apenas 2 os protestantes.

Dentro da sala, onde estavam profissionais da saúde para o caso de alguém se sentir incomodado com o que ia assistir, as emoções tomaram conta do público e críticos. Durante um breve intervalo da exibição, vários jornalistas compartilharam os seus pensamentos sobre o filme, com Kevin Fallon, do Daily Beast, a avisar: "Se pensavam que sabiam ou tinham conhecimento destas coisas, o conteúdo do filme é mais perturbador do que alguma vez poderiam imaginar. E estamos apenas na primeira metade [do filme].

 David Ehrlich, da Indiewire, foi um dos críticos que se revelou mais perturbado, afirmando que iria "precisar de 400 banhos de chuveiro para se sentir limpo".

 

 

Já no final da exibição, a Rolling Stone dizia: "No momento em que os créditos surgiram, a energia na sala pairou em algum lugar entre o desconforto com o que acabamos de testemunhar e a sensação que a mudança que estas acusações representam para o legado de Jackson foi alcançada".

 

Herdeiros de Michael Jackson contrariam documentário

Descrevendo o documentário como "mais uma produção chocante numa tentativa ultrajante e patética de explorar e lucrar com Michael Jackson" e  um verdadeiro "assassinato de uma personalidade", os herdeiros de Jackson avançaram com um processo judicial em que invocam que existe uma cláusula assinada num contrato de 1992 que impede a estação de exibir qualquer material que represente um desprestígio para a carreira de Jackson.

Assim, exigem o pagamento de 100 milhões de dólares (€88,2M) por incumprimento contratual: "A HBO violou o seu acordo de não desacreditar Michael Jackson para produzir e vender a uma maratona de propaganda ao público que descaradamente explora um homem inocente que não está mais entre nós para se defender", disse o advogado dos queixosos, Howard Weitzman.



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