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«The Bookshop»: Sobre páginas avulsas e imagens de beleza

Tem Brian De Palma, Terrence Malick, Pedro Costa e Kiyoshi Kurosawa na lista de aposta dos títulos que podem rechear a Berlinale 2019 (7 a 17 de fevereiro) de classe autoral, mas há ainda a expectativa pelo regresso de uma realizadora ibérica de prestígio internacional: Isabel Coixet. A catalã tem um trabalho inédito pela frente: Elisa y Marcela, no qual recria o primeiro casamento homoafetivo da Espanha. Em Berlim, ela é uma estrela, sobretudo após a projeção de seu filme mais recente, A Livraria (The Bookshop), que foi salpicado de elogios e de prémios na cerimónia de entrega dos Goyas.

Trata-se de uma das produções mais aclamadas entre os lançamentos brasileiros de 2018. Ode à força analgésica da literatura e ao fetiche da bibliofilia, a produção anglo-teuto-espanhola cabe na prateleira do chamado “filminho”, a mesma onde estão delícias como Notting Hill (1999) ou Love Actually (O Amor Acontece, 2003). Por estes dois parceiros seus, já dá para notar que o uso do diminutivo para a nova longa-metragem de La Coixet (de Nobody Wants the Night) não é questão de desdém, mas sim de “fofura”. A sua longa é uma “sessão da tarde” nata, daquelas que nós vemos ... vemos ... vemos ...e vemos novamente sempre que é transmitido, imantados pelo charme da idealização de sentimentos.

Estamos diante de um enredo sobre afetos, baseado em romance homónimo da britânica Penelope Fitzgerald (1916-2000). A sua versão para os ecrãs é construída a partir de uma narrativa clássica (tem começo, meio e fim no lugar; a ação se escora sobre a jornada heroica de superação; há a utilização do maniqueísmo para distinguir a boa “mocinha” e vilã). Porém, esta narrativa é feita com uma precisão quase cirúrgica no uso das cartilhas de causa, efeito e discussão moral. E há um par de atores ingleses em estado de graça, Emily Mortimer (Shutter Island) e Bill Nighy (o monstro Davy Jones da franquia Pirates of the Caribbean), construindo o que periga ser o (quase) par romântico mais tocante dos últimos anos. Tudo isso se põe em cena a partir da autoralidade de uma cineasta preocupada com impasses do querer e com formas possíveis de conciliação.

Filmado em localizações irlandesas (a cidade de Portaferry) e espanholas (uma série de prédios em Barcelona) em agosto e setembro de 2016, com um orçamento estimado em €3,4 milhões, A Livraria fala sobre livros, empoderamento feminino, formas de amar e a dinâmica Coixet de compreensão de mundo. A ligação entre esses tópicos é uma trama ambientada em Hardborough, um cantinho do céu na costa da Inglaterra, onde, em 1959, a viúva Florence Green (papel de Emily) resolve abrir uma loja dedicada a romances, poemas e contos. A sua oferta de produtos seria perfeita se não fosse o local uma terra governada pelo conservadorismo de uma alta sociedade avessa ao risco da iluminação que o ato de ler gera.

Não é por acaso, um dos romancistas mais citados é Ray Bradbury (1920-2012), que em Fahrenheit 451 (1953) aborda um futuro no qual livros devem ser queimados em prol do bem estar social.  Iguarias sci-fi como As Crónicas Marcianas (The Martian Chronicles, 1950), de Bradbury, fazem parte do menu montado por Florence no banquete de sedução que ela oferece a um dos mais distintos e temidos moradores de Hardborough: o Sr. Brundish, espécie de Visconde de Sabugosa vivido por Nighy no diapasão entre o heroísmo romântico e a fragilidade existencial. Brundish será o freguês mais prolífico de Florence, naquela cidadela que se deixar inebriar pela presença de uma livraria em seu território árido de cultura.

Mas, como há sempre uma pedra no caminho da poesia, vai aparecer uma dondoca local interessada em pôr um ponto final na poética daquele empório de Letras: a socialite Violet, encarnação do moralismo vivida por Patricia Clarkson (atriz fetiche de Coixet).



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