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Cinema brasileiro na mira da ação

Chegou ao fim a 42ª edição da Mostra de São Paulo, começou o Festival do Rio, porém, nada chama mais a atenção dos cinéfilos brasileiros neste momento do que uma investida ousada da produção local no terreno das BDs. Espetáculo pop como há tempos não se via na América Latina, O Doutrinador é o maior acerto do cinema brasileiro em duas frentes: 1) a transposição de quadradinhos nacionais para as telas; 2) a consolidação de uma estética local sólida no diálogo com a cartilha universal dos filmes de ação.

A trama é simples: o agente classe A de uma força policial de elite, Miguel Montesanti (encarando com maestria por Kiko Pissolato), vê-se nas raias do inferno ao perder sua filha, morta em um hospital público sem recursos, e resolve que é hora de fazer os corruptos sangrarem, assim como a menina sangrou. O heroísmo não tem lugar em seus atos: só o desespero, desenhado na tela em meio a sequências de ação exuberantes, mas que não diluem o tónus reflexivo do guião, em especial quando Eduardo Moscovis está em cena como bandido de colarinho branco.

Há tempos, cineastas nacionais investem no filão, como se viu em Federal (2010), de Erik de Castro; e "Operações especiais", de Tomas Portella – e ainda vem aí, cercado de expetativa, "A divisão", de Vicente Amorim. No entanto, entre tudo o que já se viu em cartaz, o trabalho do cineasta Gustavo Bonafé (em esquema de codireção com Fábio Mendonça) é o que mais e melhor se aprofunda nas camadas morais e antropológicas do género. A partir do anti-herói da BD criada por Luciano Cunha, ele cria uma trágica (e tecnicamente exuberante) alegoria sobre o alarmismo da nossa sociedade, diante da ilegalidade. Não há fins que justifiquem os meios do mascarado, mas a sua opção em matar ganha, no grande ecrã, uma dimensão crítica de debate sobre desgovernos e crises simbólicas. Estamos diante de uma radiografia moral de um Brasil fictício, ainda que bem parecido com o do mundo real, onde não se falam em partidos, nem em políticos específicos da Brasília de carne e osso. A vilã aqui é a corrupção em si, retratada como deformação da genealogia da moral brasileira.

Dizia o escritor Rafael Sabatini (de "Scaramouche") que, sempre em que o mundo se mostrar louco, o herói será reconhecido pelo senso de humor. Mas, esse mundo de impotências institucionais esquadrinhados por Bonafé não é louco: é intolerante, é individualista e é alheio à caridade. Sendo assim, nele não há humor... nem heróis. Há apenas um mascarado que perdeu a própria dimensão da ética: sem ela, resta a ele matar aquilo que o hostiliza. Ou seja, onde deveria haver heroísmo, há dúvida. De tudo se duvida na dramaturgia de O Doutrinador. Só não se duvida de que, na torpeza, Bonafé encontrou uma personagem singular, defendida com maturidade, responsabilidade e maestria por Kiko Pissolato. Lembra até os bons desempenhos de Viggo Mortensen sob a direção de David Cronenberg, tanto em Uma História de Violência (2005) quanto em Promessas Perigosas (2007), pelo tormento.

Um esquadrão de argumentistas - incluindo nas suas fileiras o próprio Luciano Cunha e Gabriel Wainer, os idealizadores do projeto, ao lado de Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lages, Guilherme Siman e Denis Nielsen – encontrou uma forma narrativa que faz jus à tradição dos filmes sobre justiçamento com Chuck Norris, Charles Bronson e outras lendas dos thrillers urbanos.



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