Asghar Farhadi e os pecados do Cinema e do Teatro em Espinho - C7nema
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Asghar Farhadi e os pecados do Cinema e do Teatro em Espinho


Foto.: Cecilia Melo

Num dos momentos mais esperados da 14ª edição do FEST, o Auditório do Centro de Multimeios de Espinho encheu para ouvir Asghar Farhadi. Mesmo sendo um festival decorrido em Portugal, o clima é babélico, centenas de interessados, alunos ou até mesmo pequenos realizadores que tentam os seus primeiros passos, um pouco de todo o Mundo, desde a cidade americana de Baltimore, como alguns intervenientes especificavam nas suas apresentações, até à Turquia. Todos aguardavam pelas primeiras palavras do iraniano, como sabem, vencedor de dois Óscares de Academia e com um cinema que tem apelado aos mais variados públicos. Não há memoria de um realizador desta origem que tenha concretizado tamanha consensualidade e universalidade (Abbas Kiarostami sempre foi tido por uma camada mais inteletualizada).

 

O teatro como opção, o cinema no coração

O autor de A Separação e O Vendedor referiu que o seu amor pela arte do cinema surgiu desde os primórdios – a sua infância – e sobretudo graças ao seu avô que constantemente contava histórias. Farhadi sonhava com tais histórias, ansiando pelo dia em que ele próprio seria o contador, que nos seus olhos seria o verdadeiro herói.

Para sua infelicidade, não conseguiu entrar na Escola de Cinema, tendo como opção o Teatro, arte que inicialmente odiava devido à sua prejudicial timidez. Para Farhadi, a ideia de falar e atuar num palco em frente de um vasto público era aterradora, uma fobia que foi perdendo durante a concretização do curso e onde, também, conheceu a sua mulher, vinda diretamente deste mundo teatral. Como se poderia presenciar no Auditório, sob um inglês arranhado e esforçado, Farhadi estava à vontade para falar em palco, a agraciação por parte dos espectadores era a sua motivação.


O Vendedor (2016)

Depois de uma introdução quase centralizada, o realizador volta-se para o seu “eu” criativo, o público em questão não esperava uma entrevista de vida, mas sim um descortinar de ideias de cinema que possam a vir tornar-se ferramentas futuras para muitos destes jovens realizadores. Farhadi revelou assim os seus segredos profissionais, “a ideia para um filme não começa pela escrita, mas sim por uma imagem”, completando o raciocínio salientando que as perguntas são “o melhor método para a vida artística.” É sabido que o cineasta trabalha exclusivamente com argumentos da sua autoria, criando um vinculo criativo que o fecha numa espécie de redoma da criação artística. Tentando ser disciplinado perante o processo que criou, Farhadi especificou que o importante do trabalho e escrita não é o que se quer transmitir, mas sim como se irá transmitir. Outro ponto crucial na escrita de um argumento, é encarar que cada personagem tem a sua razão e, como escritor, ele pode não conhecer todas essas razões. Para o realizador este é um dos métodos para construir a ambiguidade, o cinzento que inúmeras vezes refere.

 

A dramatização da vida dos outros

Para o iraniano, a vida comum e quotidiana não é motivo que chegue para fazer Cinema. Como argumentista, Farhadi preocupa-se essencialmente com a narrativa, com o desenrolar da intriga e para isso deve sobretudo “contaminar” essa vida vulgar. Referenciando Hitchcock, o realizador tenta com isso explicitar o seu ponto de vista. O apelidado “mestre do suspense” era dotado do género do thriller, como nós sabemos, recriando nesse mesmo universo um jogo de dramas cinematográficos, que nunca foram, sob o ponto de vista de Farhadi, um retrato da vida comum.

Quanto aos realizadores próximos desta realidade reconhecível, “muito bem, os festivais veem-nos, mas passados 10 minutos o nosso cérebro desliga-se e desinteressamos-nos do filme. O quotidiano não é interessante, resulta sobretudo em tédio de filmes. Sim, eu sei, há realizadores que ganham prémios por isso.” Como solução a esse chamado “desinteresse”, Farhadi, de uma certa pedagogia teatral, explica que “existe um potencial no quotidiano, mas para isso é necessário colocarmos signos. Conflitos e crises. Por exemplo, em A Separação, se a mulher não pedisse o divórcio, a vida desta seguiria em linha reta. É pedido uma crise, uma emoção, um sobressalto nos rituais da sua vida. (…) Esta dramatização é necessária para manter o espectador sentado e a ver. Se numa peça de teatro sairem pelo menos dois espectadores da sala é sinónimo que a peça falhou o seu propósito. O Cinema é a mesma coisa.”

Alfred Hitchcock

São declarações que provocam uma certa urticária aos defensores de uma cinema “realista”, o focar na estética ao invés da narrativa, por outras palavras. Farhadi parece defender o Cinema como mero dispositivo contador de histórias do que uma arte emancipadora. Porém, remata, tendo em conta a questão do Cinema como forma de arte, que ao tentar fazer filmes teria como grande preocupação o espectador ser absorvido por esse universo, sem nunca refletir ou “pensar que está a ver um filme” ou simplesmente “ter a consciência que foi alguém que escreveu e o dirigiu”. De forma a fortalecer a sua visão, argumentou: “A Arte tem ser sobre o produto e não sobre o artista”.

Será que conhecemos o cinema iraniano?

Asghar Farhadi reflete sobre o cinema produzido no Irão após a intervenção de alguém do público. O realizador, ao contrário de muitos dos seus conterrâneos, revelou não ter problemas com o comité de censura do seu país, até porque os seus filmes falam “sobre a sociedade e não do sistema”, acrescentando de seguida outra defesa em relação à censura, “quando escrevo um guião tento procurar novos meios”. Nesse sentido, desfaz um dos maiores equívocos de muitos cinéfilos ocidentais – o cinema iraniano não é somente politico. “Anualmente são produzidos mais de 100 filmes no Irão, entre comédias, dramas e outros. O público ocidental apenas vê uma porção muito pequenas dele”. Em entrevista ao C7nema, Farhadi afirmou que muitos festivais de cinema utilizam esse cinema político iraniano e as constantes polémicas como “hot news”, ferramentas de atração. Porém, apesar de uma indústria rica, o Irão impõe dificuldades e limitações na produção de filmes.

Cinema com o coração nas mãos

Asghar Farhadi ainda teve espaço para falar sobre o cinema atual, o seu estado, ou segundo o realizador, a sua falta de coração. “Quando fiz O Vendedor desconhecia por completo que um ano depois iria surgir o movimento #metoo. Eu não calculei um filme para inserir nessa temática [a violação], queria simplesmente falar disso. Hoje vimos muitos filmes sobre refugiados e mulheres, mas eles são calculados. Não vêm do coração”. Não só de temáticas o cinema está a perder a sua força. Para o realizador, os filmes de hoje em dia “raramente nos dão tempo para pensar”, culpando sobretudo a crescente cultura da séries de televisão.


Foto.: Cecilia Melo

Em paralelo, Farhadi também se focou no estado do teatro. “Quando se tenta aproximar o teatro do cinema retira-se a intelectualidade e por sua vez qualidade”, uma afirmação que foi antecedida por: “o teatro é uma arte para intelectuais, não podemos ficar contente se muitas pessoas vão ao teatro. Se isso acontecer é porque baixou qualidade.”. Apesar de trabalhar nos dois mundos e no caso do seu oscarizado O Vendedor, fundir ambos, a sua inteira diluição é impossível. Farhadi contou a história do rio para explicar os chamados pecados do teatro. Enquanto no teatro basta alguém em palco dizer há um rio por detrás deste de forma, e o público aceita esta realidade, entregue ao seu imaginário, no cinema tal é mortalmente descabido: é necessário mostrar o rio, não é um “faz de conta”, mas uma representação real do mesmo. Essa é a grande diferença.

Para terminar, o realizador deixa um conselho a todos os participantes da masterclass. “Existem dois tipos de realizadores, aqueles que adoram realizar, que são poucos, e os que adoram o facto de serem realizadores, que são muitos. Se seguirem o último caso, estão a perder na vida.”



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