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Cannes: uma volta às curtas da Semana da Crítica

Criada em 1962 pela União Francesa dos Críticos de Cinema como uma seção paralela do Festival de Cinema de Cannes, a Semaine de la Critique foca-se na descoberta de novos talentos, revelando as primeiras e segundas longa-metragens, bem como uma secção com curtas-metragens de talentos emergentes.

Em 2018, a escolha de curtas metragens envolveu diversas obras de várias origens, quer em competição, quer em sessões especiais. Aqui ficam uma análise a 12 delas, faltando apenas Ya Normalnyi que não tivemos hipótese de assistir.


Competição

Hector Malot : The Last Day of the Year
(Prémio Discovery para Curta-Metragem)

Jules Verne? Victor Hugo? Marcel Proust? Balzac? Maupassant? Todos questionam o autor francês que a nossa protagonista refere logo no início quando explica como o tio lhe deu um livro sobre a solidão e a perda da família quando os pais se separaram. Nesse momento, ela questiona o ato de lhe darem essa prenda naquele momento específico, mas na verdade, muitos dos temas de Sem Família de Hector Malot (o escritor em causa) acompanham a sua existência profundamente solitária.

Jacqueline Lentzou, que já tem no seu currículo diversas curtas metragens, oferece assim ao espectador um pequeno trabalho sobre o isolamento, que necessariamente não implica o estar sozinha. Aliás, vemos esta mulher com amigos, na intimidade com um homem, numa festa, a passear o cão, mas em todas essas situações o sentido de exílio pessoal acompanha-a, tal como o fazia a Rémi, o protagonista da obra de Malot.


A Wedding Day
(Prémio Canal + para Curta-Metragem)

Com uma narrativa fragmentada, Elias Belkeddar - mais que contar uma história - tem preferência por criar momentos e atmosferas específicas no foco um solitário pequeno criminoso exilado nas ruas de Argel. É entre pequenos piropos, discussões, negociatas obscuras, e recorrendo a uma maior exigência na expressividade do seu protagonista, uma espécie de lobo solitário que não está muito longe das figuras dos westerns ou filmes de gangsters, que Belkeddar entrega um exercício exemplar no tom e imagética, desprezando um real fio condutor que transformasse esta pequena peça numa exemplo narrativo de A para B e depois C.  

Pelo meio ainda se redescobre Fadoul, o James Brown marroquino que em 1970 tocou Sid Redad e que agora explode sonoramente num Wedding Day a meio do filme.


Amor, Avenidas Novas

Os pais de Manel podem ter inventado o amor, mas ele tem o coração e a cabeça no lugar enquanto espera para partilhar o seu gelado.

Depois de estrear no IndieLisboa, a história de um rapaz (Manel-Manuel Lourenço) que vai ajudar um amigo a transportar o seu colchão de casal e que se apaixona pelo caminho por uma assistente de produção (Rita-Beatriz Luís), mostra toda a ingenuidade, romantismo e uma valente dose de fantasia da ideia de Amor de Duarte Coimbra, jovem cineasta que com toda a leveza, ternura e sentimento evoca ainda o seu desalento com a cidade de Lisboa (fala-se dos despejos, dos Tuk Tuks, dos turistas e do airbnb) e com o mundo perigoso que vivemos (atentado na Suécia).

Com uma sequência final músical a fazer lembrar - no arrojo e metodologia pop - uma espécie de Gabriel Abrantes encantado por Lena D’Água, Coimbra consegue durante escassos minutos transportar-nos para um território e um estado bem mais sonhador e apaixonado que alguma vez imaginamos.

Pauline Asservie

"Simone de Beauvoir nunca se teria sentido assim por um gajo!", diz a nossa protagonista, Pauline, logo após de numa festa com os amigos discutir com eles porque ninguém desliga os telemóveis. Na verdade, esta jovem não é contra as novas tecnologias, nem quer os amigos só para si, ela apenas espera desesperadamente uma mensagem do homem com quem está envolvida, um casado que de um momento para o outro deixou de lhe ligar.

É o amor e o estado de paixão relatado logo nos primeiros momentos com uma citação de Roland Barthes e os seus Fragmentos de um Discurso Amoroso, a grande inspiração da cineasta Charline Bourgeois-Tacquet para esta curta que marcou a sua estreia em trabalhar com atores profissionais. Ela mesmo reconheceu em entrevista que a certo ponto da sua vida já foi a Pauline da sua história, uma mulher a entrar na fase de obsessão num caso onde o “Ghosting” a que e está submetida vai afetar todo um grupo que é arrastado para o seu problema.

Sempre em tom de comédia negra, na visão dos outros, e da tragédia no ponto de vista da nossa sofredora, Bourgeois-Tacquet entrega uma curta metragem energética, muitas vezes hilariante, impulsionada grandemente por um texto cuidado, mas não muito denso, que tem no duo de atrizes Anaïs Demoustier e Sigrid Bouaziz a grande força motora para uma outra Jeunne Femme dê que falar na Semana da Crítica.

Rapaz

Os telemóveis e os tablets vieram alterar a forma quase imediata com que se capta a realidade, mas aqui servem neste trabalho do chileno Felipe Gálvez para captar a detenção de um jovem por populares quando é apanhado a roubar num autocarro.

À primeira interação com o seu captor, mais gente se vai acomulando e também captando o momento, agindo este grupo como a polícia, o juiz e o carrasco, linchando o homem a céu aberto enquanto se debate crime e castigo.

A ira popular não é tema novo, mas a variação aqui é o uso da tecnologia como o motivo de todo o crime (o jovem alegadamente roubou um telemóvel) e é depois motivo da ira popular recorrendo-se à gravação do momento por outros mobiles. Curto, incisivo e apostando no realismo, o realizador entrega uma pequena gema onde não falta uma mensagem política e social em relação à justiça popular como forma amoral de fazer cumprir a lei.

Exemplary Citizen

Curiosa justaposição entre dois segmentos da sociedade coreana, uma classe mais afortunada e os mais desafortunados, num jogo de egoísmos com base numa casa de banho que tanto funciona como espaço para se vingarem apostas como centro para obsessão de um homem em a limpar.

Apesar das boas intenções e de um exercício visual extremamente interessante, Kim Cheol-hwi entrega este trabalho profundamente alegórico de uma forma aparentemente ingénua na sua simplicidade, sustendo numa metáfora final um exame a uma sociedade que brilha mais pela técnica do que pelo conteúdo.

Tiger

O surreal e o real misturam-se neste conto de uma família afetada pelo alcoolismo paterno, usando para isso apenas um episódio, o suficiente para ver como esse evento nos molda num desenvolvimento orgânico familiar, mas também em relacionamentos futuros.

A forma como Mikko Myllylahti encontra para aligeirar o tom pesado da temática foi introduzir na figura de um filho a forma de um tigre, inspirado na subcultura do Cosplay que vai nos acompanhar durante todo o filme.

Jogando bem com cenas interiores e exteriores e culminando num baile ao som apaixonado dos Future Islands, mais que um trabalho extremamente conseguido, o que Tiger oferece é um cineasta já com alguma maturidade para encontrar um bom balanço e um tom de magia no meio de um drama profundo que lhe saiu da própria história pessoal.


Schächer

Profundamente simbólico na forma como retrata o envelhecimento, a dependência e a perda, Schächer é uma incursão do cineasta Flurin Giger que, através de planos fixos [que dão ainda um maior sentido de clausura) e uma Mise-en-scène impecavelmente construída - repleta de quadros vivos e em movimento - narra os últimos dias de um casal de idosos. Se a partida do primeiro elemento vem com alguma surpresa logo a abrir, o restante é uma análise da outra metade do casal a sair da rotina dentro da mesma, forçosamente a sentir-se incompleto e sem propósito ou fundamentação para continuar.

Uma banda sonora regada de temas de Roman Rutishauser e Paul Giger acompanham esse memento mori amnésico perfeitamente encenado e com claras influências teatrais numa construção onde a fotografia de Silvan Ginger merece ainda uma nota de atenção e brilhantismo.


La Persistente

O próprio cenário destas filmagens, nos Pirinéus, serve logo de sobreaviso para o pequeno conto de uma estranho que chega a uma pequena localidade e é atacado e roubado pelos locais. Aos toques de Carpenter, Camille Lugan entrega o seu fascínio pelas motas, pelas panorâmicas e por um jogo intenso entre o lado mecânico na relação do Homem com uma máquina, mas também com uma mulher, ela mesmo a sentir na pele o esguichar óleo quando em contacto com ele.

Com um misticismo muito próprio e experimentalismos típicos de primeiras obras, existe por aqui um sulfuroso jogo entre a tensão, o erotismo e a justiça mística e espiritual nesta história tecnicamente irrepreensível e com suficiente pretensões para manter a cineasta debaixo de olho durante largos anos.

 

Sessões especiais

The Fall

Artista gráfico de origem, Boris Labbé vem desenvolvendo nos últimos anos uma abordagem aos vídeos de animação de forma conceptual fora do cinema clássico e mais próximo das instalações de vídeo. Em The Fall, ele mostra a sua visão do Universo Dantesco, pegando e abusando da imagética de nomes como Jérôme Bosch, Goya ou Henry Darger, entre outros, para contar como à medida que os seres celestes descem à Terra criam desequilíbrios da ordem mundial, começando uma queda trágica que leva ao surgimento de opostos cruciais: os círculos do inferno e do céu.

Visualmente estonteante na negritude e no sentido de repetição de eventos (e simultaneamente regeneração), Labbé oferece ao espectador uma visão letal de um trabalho clássico perpetuado sensorialmente com a ajuda de uma banda-sonora envolvente (das que se agarra à pele) de Daniele Ghisi.

Third Kind

Uma crise dos nossos tempos e a ficção científica cruzam-se nesta obra do grego Yorgo Zois que tanto busca influências em Tarkovsky e o seu Stalker, como em Encontros Imediatos de 3ª grau de Steven Spielberg. Mas no centro destes dois nomes invariáveis do cinema mundial, Zois encontra numa temática urgente no seu “core”, colocando três pessoas a regressarem ao Planeta Terra (há muito abandonado pelos terráqueos) devido à existência de um sinal que demonstra que ainda poderá haver uma réstia de vida.

Filmado no antigo aeroporto de Atenas, que serviu durante uns tempos como campo para os refugiados, Third Kind é dos melhor exemplos onde a magia da 7ª arte e o cinema político se cruzam sem necessidade de lições de moral ou de um miserabilismo manipulador.


Ultra Pulpe

Com Ultra Pulpe (Apocalypse After), Bertrand Mandico (ou MandiCaos como já lhe chamam em França) embarca numa nova aventura meta-fílmica com “alguns” dos Garçons Sauvages (a sua última longa-metragem, estreou por cá no IndieLisboa). Ultra Pulpe, que poderia se chamar Ultra Chaos, segue uma realizadora, Joy (Elina Löwenson), sempre acompanhada por Pauline Lorillard, Vimala Pons, Nathalie Richard e Lola Créton nos papéis impostos por um guião absolutamente alucinante.

Mais que contar uma história com princípio meio e fim, este orgasmo visual e sonoro semelhante a um delírio em ácidos vê o cineasta a carregar no conceito do processo de criação artística, tudo num universo erótico sci-fi de série Z com claras influências no trabalho de Joe D'Amato, cineasta italiano conhecido pela sua mistura explosiva de horror-porn, onde filmes como Erotic Nights of the Living Dead e Porno Holocaust se destacaram.

Em suma, estamos perante um explosivo objeto bizarro repleto de sensualidade e macabro cuja organização em jeito Matrioska faz com que uma história ou personagem leve a outra, culminando num trabalho caótico de plena criatividade, fulgor e irreverência.



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