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Retrospetiva Abel Ferrara: travessia no inferno («Bad Lieutenant», 1992)

Certos elementos do universo de Ferrara unem-se para uma jornada apoteótica em busca de redenção. Em algum momento a falência de qualquer limite moral transforma-se numa busca desesperada de referências. Salvação rima com religião; mas a remissão através do espírito, a ser possível, só o é depois de uma longa travessia no inferno.

O “lieutenant” sem nome do título (Harvey Keitel) começa a sua trajetória com uma aposta: como se não tivesse nada a perder, arrisca nos jogos da final do campeonato de basebol. Não é que ele corra riscos sem utilizar uma base “científica”: “A série tem de durar sete jogos. Sabes quanto se gastou em publicidade, o dinheiro que ganham as televisões em anúncios, os patrocínios para os jogadores? Há muitos interesses nisto”. O espectador vai acompanhar as oscilações da sua sorte ao longo de todo o filme. Num enredo fragmentado como as ações do protagonista, será essa, eventualmente, a “storyline” detetável.

Além do jogo a quantias irresponsáveis há drogas – de todos os tipos, para fumar, para “snifar”, para injetar. Não há moralidade ou sentimentalismo mas antes um tipo de adição que se metamorfoseia num facto do quotidiano. Ele  droga-se porque sim. Com a autodestruição sabe ele lidar – aconselhado até por um traficante que o crack. pode matá-lo. Resposta óbvia: “Agora dás conselhos, é? Mas que raio de comerciante és tu?

Mas o “mau tenente” vai muito além dos limites da responsabilidade por si e pela sua família negligenciada. A apresentação das suas credenciais passa por extorsão (a dois assaltantes apanhados em flagrante), uma longa e deliberadamente repugnante sequência de assédio a duas adolescentes e roubo de drogas de um cadáver. Como faz Ferrara para manter no limite da simpatia do espectador um personagem execrável como este é quase um mistério.

Além dos dealers, junkies e homicidas do costume há freiras. Sempre existiram nos seus filmes, mas aqui passam de ícone metafórico para protagonistas – primeiro como a vítima da profanação suprema: a violação de uma delas (Frankie Thorn) dentro da igreja. Segundo o laudo médico, com lacerações acrescidas pelo uso de um crucifixo. Os diálogos são duros: um policial propõe uma recompensa de 50 mil dólares pela captura dos criminosos. O “lieutenant” fuzila: “Deixa isso para a Igreja Católica. Há violações todos os dias. Não há que pagar 50 mil dólares porque estas miúdas andam vestidas de pinguim”. E, certamente, “a igreja é uma máfia”. Curiosamente, quando a sua “sorte” parece começar a mudar ele diz que “não tem medo de nada porque foi abençoado. Sou a porra de um católico!”.

As religiões ocidentais (católicas, protestantes, calvinistas) tenderam sempre a massacrar o homem perante Deus. Ferrara propõe através de uma adicta (Zoe Lund, coautora do argumento), num momento filosófico à base de heroína, que humanos são como vampiros “obrigados a consumir-se até que não reste mais nada além do apetite”.

Por fim, o argumento troca as voltas ao protagonista e ao espectador após conceder-lhe um justificável desejo de vingança pelo que fizeram à freira. Ele diz-lhe: “Como consegue perdoar estes canalhas? Eles queimaram cigarros sobre si. Acorde para a realidade!”. Resposta: “Aqueles tristes e revoltados rapazes vieram ter comigo como os necessitados. E como a maioria dos necessitados, foram mal-educados. Como todos os necessitados, eles tiraram. Jesus transformou a água em vinho. Eu devo transformar o sémen amargo em esperma fértil. O ódio em amor. E, quem sabe, assim salvar as suas almas.

Estão concedidas ao mau tenente (e ao espectador…) todas as possibilidades para um renascimento – nem que seja enquanto mártir.



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