Menu
RSS

«Serenity» (Serenidade) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

A carreira de Steven Knight oscila entre os guiões e as aventuras pela direção, tendo isso resultado num "one hit wonder" intitulado de Locke, que através do minimalismo do seu cenário (despido a fim de provar engenhosidade do seu argumento) incorporaria um teatro improvisado com condução perfeita (palavra “condução” não foi colocada aqui ao acaso) pelo ator Tom Hardy.

Neste novo trabalho pelas duas frentes, Knight recorre novamente às limitações de cenário. Desta feita, não usufruindo da barreira evidente aos olhos do espectador, mas sim metaforicamente o transportando para os horizontes longínquos do oceano que banha esta ilha que dá pelo nome de Plymouth. Neste pedaço de terra localizado em nenhures, um paraíso para exilados e pescadores de guarida, homens sem passado que coexistem com mulheres de intenções, Serenity apressa-se em um certo tom novelesco para administrar os conhecimentos do cinema noir, elementos que vão desde as femmes fatales, aos protagonistas quebrados, passando pelos crimes passionais e de ambiguidade moral.

Ficamos então pelo registo de ser, visto que o argumento de Knight tem a tendência para o disfarce de forma a entregar-se numa completa reviravolta de argumento. Assumindo então uma ficção cientifica descurada e demasiado presa ao simbolismo da sua ideia, o que não garante a astucia proposta, Steven Knight acaba por apoiar-se em excesso na descrença da sua (in)coerência, enquanto que tenta libertar-se das amarras de Locke, exibindo uma megalomania pelo espetáculo “cerebral” à la Nolan. Sim, há muitos pós de pirlimpipim "Nolanizados" aqui, uma garantia da linguagem sóbria para espetar uma bandeja de pseudo-filosofias tecnológicas e um existencialismo de bolso.

Porém, se o guião falha, porque nem todas as formas e equações são à prova de bala, a linguagem visual e narrativa tende em ser fogo-de-artificio sobre o anonimato das “façanhas” enquanto realizador. Com isto, saliento que o artificialismo ocasional entra em estado de choque com planos-denuncia para com a natureza escondida do filme, o senso de videojogo a perpetuar como carta de trunfo, mais a incapacidade de arrastar fora do academismo empreendedor da televisão chique.

Involuntariamente Serenity funcionaria como um arraçado de telenovela tropical, em conjunto com o que de rotineiro se pratica na indústria atual. Este é um exemplo de que por vezes um guião engenhoso é transformada numa patetice pegada. 

Hugo Gomes

Morreu Andy Vajna, o produtor de «A Fúria do Herói», «Instinto Fatal» e «Exterminador Implacável 2»

Andrew G. Vajna, também conhecido por Andy Vajna, conhecido como produtor executivo de filmes como First Blood (A Fúria do Herói) e Total Recall (Desafio Total), faleceu aos 74 anos. A sua morte foi confirmada pelo Fundo de Cinema Húngaro, que o relembrou como uma “figura dominante da industria cinematográfica húngara e internacional”, assim como fundador do respetivo fundo.

Nascido a 1 de agosto de 1944, Vjana, em conjunto com o seu parceiro Mario Kassar, fundaram a Carolco, produtora responsável por blockbusters como Terminator 2: Judgment Day (Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento), os primeiros três primeiros filmes da saga Rambo e ainda alguns filmes de Paul Verhoeven como o já referidoTotal Recall (Desafio Total) e Basic Instinct (Instinto Fatal).

Para além disso, ainda produziu Angel Heart - Nas Portas do Inferno, DeepStar Six (Terror nas Profundidades), Evita, Judge Dredd (A Lei de Dread), BZ - Viagem Alucinante, Nixon e Die Hard: A Vingança. O seu último trabalho no ramo foi com Terminator Salvation (Exterminador Implacável - A Salvação) e o ainda inédito School of Scumbags.

Andy Vajna foi ainda fundador e presidente do American Film Marketing Assn, tendo lançado o American Film Market. 

«Destroyer» (Ajuste de Contas) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Uma Nicole Kidman desfigurada não salva um policial sem personalidade. Esse, incapaz de resolver os demónios inerentes, quanto mais avançar por uma missão de “search and destroy” com conotações pessoais.

Destroyer: Ajuste de Contas tinha a seu dispor todos os instrumentos para orquestrar um corajoso filme posicionado na natureza exaustiva de thrillers ambíguos, aliás, esses tons de cinzentos são tão próprios como a da protagonista, uma atriz que se demonstra pronta para desfazer a teoria da estatueta, auto-desafiando em trabalhos cada vez mais exigentes e forasteiros dos seus territórios confortáveis. Mas se Kidman é a força da natureza aqui, na verdade é porque é a única capaz de “sujar as mãos” para colocar estes amontados de lugares-comuns no seu devido eixo, enquanto que a realizadora Karyn Kusama (só de lembrar que esteve por detrás de “coisas” como Aeon Flux …) nada o faz para os mover (ou demover).

Se o filme corresponde de A a B e consequentemente a C, sem qualquer tipo de reflexão, intercalando por flashbacks intrometidos que não deixam nada ao espectador, Destroyer é assim um filme inóspito de ideias, de sentimentos, estéticas, e sobretudo de contexto social e político. É um mero episódio de revisão aos códigos deste género onde a protagonista safa-se imaculada, mas até isso poderia virar um problema, pois o argumento assinado por Matt Manfredi e Phil Hay (responsáveis por Aeon Flux … a sério, o “filme” persegue-nos) é de difícil resolução, deambulando pelo óbvio, e utilizando a sua estrela numa derivação que se confunde com o prolixo do argumento (quase adquirindo um falso tom malickiano, por outras palavras, “tentativas de maliquices”).

Os resultados são dececionantes, no sentido em que não existe cerebralidade no tratamento deste modelo de crises existenciais de uma detetive à beira de um ataque de nervos. Quanto a atriz, é o melhor que o filme tem para oferecer ... 

Hugo Gomes

«If Beale Street Could Talk» (Se Esta Rua Falasse) por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Se a rua falasse, ela diria que Barry Jenkins avançou numa terceira longa-metragem com a confiança que não se encontrava na anterior e premiada obra, Moonlight.

O registo tão Sundance é substituído por um ego artístico que contamina uma narrativa sob os tons de um cinema mimético e imagético, é a estética doce a imprimir emoções (há aqui qualquer coisa de Wong Kar-Wai dos tempos de In the Mood for Love), desde a música jazz que ecoa como recordações vitalícias no casal de personagens, cada um deles experienciando um romance que não se conforma nas omnipresenças de Hollywood. É um amor que remexe no trágico da sua natureza sociopolítica, tecendo com isso um mapa de uma América resumida em pontos fulcrais; a discriminação, a religiosidade fervorosa e o corrupto sistema que desfavorece minorias e incentiva um medo justificado pelas autoridades.

Sim, Jenkins sustenta toda esta conversa de esquina num retrato crítico e sentido da sua própria comunidade, isto, em tempos em que a administração Trump fomenta ainda mais as desigualdades raciais e legitima a violência e ódio aos mesmos. If Beale Street Could Talk segue as pisadas contextuais de Moonlight (neste caso, transforma a década de 70 numa réplica social dos nossos tempos), mas avança em terrenos mais exóticos que as abordagens anteriores. Assistimos a um homem novo, determinado, sem o medo da pouca especificidade e das deambulações que providenciam como atalhos temporais. A criação de uma narrativa-mosaico sem as requisições do próprio conceito insertado em produções do género, porém, desafiando o espectador a “costurar” os destino destes mesmos protagonistas.

Barry Jenkins devolve ao livro do escritor e ativista James Baldwin a sua “rua” original, 20 anos depois do francês Robert Guédiguian o ter deslocado para as ruas de Marselha. Mas não se trata somente de um caso de fidelidade, tudo deveu-se à criação de um filme sensível e curioso erguido pelos subtis talentos de Kiki Layne, Stephan James (completamente ignorado nesta award season) e Regina King, convertidos peões nestes quarteirões inspirados pela plasticidade. É sim, o melhor trabalho de um realizador disposto a abandonar a frieza da veracidade encenada no Cinema e aproxima-la à poética das imagens.

Mesmo que o resultado não seja totalmente integrado nesse senso, filmes como If Beale Street Could Talk são raros na terras do Tio Sam. 

Hugo Gomes

Contactos

Quem Somos

Segue-nos